Alergia Alimentar em Cães e Gatos

 

A alergia alimentar em cães e gatos é uma doença que envolve o sistema imune e resulta em prurido intenso e manifestações dermatológicas.

Vamos falar das principais causas da alergia alimentar canina e felina e do diagnóstico e tratamento utilizando rações hipoalergénicas.

 

O que é a alergia alimentar em cães e gatos?

A a alergia alimentar em cães e gatos faz parte das reacções adversas a alimentos. Estas incluem respostas alérgicas do sistema imune a um ingrediente – alergia alimentar, ou respostas não imunes por reacção a um composto da dieta ou por falta de uma enzima digestiva.  – intolerância alimentar.

A alergia alimentar canina e felina é uma doença alérgica com muito prurido e não sazonal. Está associada a ingestão de um alergénio presente no alimento. Portanto é uma hipersensibilidade tipo I (alergia) a um ingrediente alergénio. Os sintomas poderão desenvolver-se num curto espaço de tempo (minutos a horas) ou após alguns dias.

A alergia alimentar em cães e gatos é a terceira hipersensibilidade mais frequente, a par da atopia e da dermatite alergica à picada de pulga. No entanto, a sua incidência real é difícil de obter.

Porque ocorre a alergia alimentar canina e felina?

A alergia é uma reacção imune exuberante a uma substância inócua. Na alergia alimentar, os principais alergénios são proteínas e os seus derivados (glicoproteínas, lipoproteinas). No entanto é preciso que haja contacto do alergénio com o sistema imune para se desenvolver a reacção alérgica.

Qualquer proteína pode tornar-se um alergénio. Mas é preciso que haja passagem da mucosa intestinal para sensibilização dos sistema imunitário. É preciso este contacto prévio onde se vai produzir imunoglobulina IgE, percursora da reacção alérgica. Quando houver novo contacto, o organismo vai dar o alerta e gerar uma reacção alérgica.

No entanto, os organismos  saudáveis têm sistemas de protecção que evitam a entrada de antigénios. Estes consistem nas enzimas digestivas, na barreira da mucosa intestinal e os movimentos de progressão do conteúdo digestivo.

Então foi proposto que poderá ocorrer por debilidade do sistema intestinal. Infecções virais e infestações com parasitas intestinais poderão predispor a alergias alimentares ao tornarem o sistema digestivo mais debilitado e permeável aos alergénios. Pensa-se que este mecanismo poderá ser importante principalmente em animais jovens.

Em gatos, a raça Siamesa parece ter maior risco de sofrer de alergia alimentar. Do total de gatos afectados por alergia alimentar observou-se que cerca de 30% eram da raça Siamesa.

Alimentos envolvidos na alergia alimentar

Apesar da associação dos aditivos alimentares a alergias, estes raramente são a sua causa. As proteínas são os principais alergénios na alimentação. O potencial alergénio das proteínas pode ser aumentado (ou diminuido) durante o processo de produção de rações devido ao aquecimento por desconfiguração da proteína.

As proteínas estão associadas a alimentos específicos. A maioria dos cães é alérgico a 2 ingredientes. No entanto, novas alergias alimentares poderão desenvolver-se durante a vida do animal, ocorrendo principalmente em gatos.

Alguns alimentos por serem mais utilizados nas rações são identificados mais frequentemente com alergias alimentares. Os alimentos alergénios mais associados às alergias alimentares em cães e gatos são:

  • Vaca;
  • Soja;
  • Lacticíneos;
  • Trigo;
  • Porco;
  • Galinha;
  • Milho;
  • Cavalo;
  • Ovo;
  • Peixe.

Sintomas da alergia alimentar em cães e gatos

O principal sinal da alergia alimentar canina e felina é a presença de prurido (comichão). A frequência dos sinais relaciona-se com a frequência de contacto com o alimento alergénio. Assim, alimentos raramente fornecidos geral sinais esporádios. Ingredientes aos quais tem contacto diário geram sinais permanentes.

Este prurido afecta principalmente as orelhas, lombo, patas, axilas e períneo no cão e face, cabeça, orelhas e pescoço nos gatos (podendo também ser generalizado) . O prurido provocado por alergias alimentares tem uma resposta fraca a córticoides. Outras queixas são o aumento da frequência de defecação (>2x), problemas gastrointestinais (10 a 15% do cães e 33% dos gatos apresentam vómitos e diarreia), otites bilaterais recorrentes, infecções de pele e seborreia (descamação). Nos gatos, poderá ainda haver desenvolvimento de alopécia, dermatite miliar, complexo granuloma-eosinofílico, colite linfocitica-plasmocitica e aumento dos gânglios linfáticos.

No decorrer da alergia alimentar e do prurido intenso, poderão desenvolver-se outras lesões dermatológicas como:

  • Pápulas e placas;
  • Pústulas;
  • Eritema;
  • Úlceras,
  • Escoriações;
  • Crostas;
  • Descamação;
  • Alterações na pele (ex. hiperpigmentação, hiperqueratinização).

 

Diagnóstico da alergia alimentar em cães e gatos

Durante o diagnóstico, deverão excluir-se doenças dermatológicas de sintomas semelhantes. O diagnóstico definitivo será feito através de dietas de eliminação e testes de provocação.

As dietas de eliminação (hipoalergénicas) são dietas que utilizam um número restrito de ingredientes, idealmente aos quais o animal nunca esteve exposto (não podendo ser alérgico). Estas dietas poderão conter apenas uma fonte de proteína (ex. veado) e uma fonte de carbohidratos (ex. batatas). Quando o animal melhora estando numa dieta de eliminação parece indicar que os sintomas se deviam ao alimento.

Os testes de provocação permite demonstrar que realmente a dieta original era a causa da alergia, confirmando o diagnóstico. Faz-se depois de um período de recuperação da dieta de eliminação. Se os sintomas, como o prurido, regressarem está confirmado o diagnóstico.

Administração da dieta hipoalergénica de eliminação deverá originar redução no prurido ao longo das semanas seguintes. Quando se administra a dieta original (teste de provocação) durante 15 dias os sintomas regressam. Depois administra-se novamente a dieta hipoalergénica confirmando o diagnóstico com a redução nos sintomas. No entanto a recuperação poderá não ser total se existirem outras alergias concorrentes, como a atopia e DAPP.

Escolha da dieta hipoalergenica

As dietas hipoalergénicas devem ser escolhidas e adaptas a cada paciente. a escolha baseia-se na ausência de ingredientes aos quais o cão ou gato já esteve exposto durante a sua vida.  A dieta não deverá então conter ingredientes aos quais o animal já esteve exposto (potenciais alergénios) nem conter aditivos (corantes, aromas e conservantes).

As dietas caseiras hipoalergénicas podem ser insatisfatórias: muitas vezes são nutricionalmente desequilibradas. A vantagem da sua utilização no período diagnóstico é utilizar ingredientes adaptados à história de cada animal. Poderão ser seguidas no período de diagnóstico, mas se desequilibradas poderão causar deficiêcias nutricionais. Para dietas hipoalergénicas caseiras a longo prazo recomenda-se a consulta de um médico veterinário nutricionista.

Principalmente em cachorros em crescimento, a dieta caseira necessitará de suplementação (cálcio, vitaminas e ácidos gordos). Em gatos ainda se deverá incluir a taurina na suplementação. É comum usar uma fonte de proteína com uma fonte de carbohidratos, em proporções de 1:2 a 1:4. Um exemplo é arroz com carne de veado.

As rações hipoalergénicas comerciais são mais práticas mas poderão conter (ou estar em contacto) com ingredientes alergénios. É ideal para animais em crescimento, onde os riscos de uma dieta não balanceada são maiores.

É indicada a utilização de uma dieta com alto valor de proteína e de alta digestibilidade. Uma boa digestão poderá ser sinónimo da destruição dos alergénios. Este pressuposto também originou a produção de rações hipoalergénicas de proteína hidrolizada (previamente digeridas).

Em gatos, pode-se utilizar comida de bebé contendo fiambre ou cordeiro (mas não contendo cebola pois é tóxico para os gatos). As rações hipoalergénicas para gatos não são 100% fiáveis. As rações húmidas poderão ter a vantagem de conter menos conservantes e ser mais palatáveis.

Restringir a alimentação à dieta hipoalergénica é a chave para o sucesso. O animal só poderá ingerir esta dieta e água. Acesso a qualquer outro alimento deverá ser negado. Isto significa que não pode comer guloseimas, restos de alimento, ter acesso às taças de outros animais (mesmo que de outra espécie) ou roer brinquedos de origem animal (como os ossos de couro).

Também se deve impedir o acesso não vigiado ao exterior onde poderão ter comportamentos predatórios (principalmente os gatos) e acesso a lixo. Atenção a medicações palatáveis que podem conter proteína animal, estas deverão ser substituídas por medicações tradicionais. Os brinquedos e guloseimas poderão ser substituídos por alimentos não alergénicos, como maças (sem caroço) e vegetais.

Pode saber mais sobre rações hipoalergénicas para cães e gatos no nosso artigo.

Tratamento da alergia alimentar em cães e gatos

O tratamento baseia-se em evitar exposição ao ingrediente alergénio. Ou seja, na utilização de dietas hipoalergénicas. Após confirmação do diagnóstico, a maioria dos donos procuram uma ração hipoalergenica comercial pela sua comodidade.

Alguns donos ficam reticentes de fazer o teste de provocação. Ao observarem as melhorias durante a dieta de eliminação não querem voltar a gerar o desconforto causado pela alergia. No entanto, o ideal será fazer o diagnóstico completo e identificar os alergénios.

No teste de provocação, introduz-se os ingredientes potencialmente alergénios um a um e regista-se se há sintomas. Identificar os alergénios é muito importante para a futura dieta do animal. Assim, o cão ou gato poderão ter uma dieta mais variada excluindo apenas esses ingredientes.

As dietas comerciais são mais convenientes para o dono. Mas cerca de 20% dos cães com alergia alimentar não se dão bem com rações comerciais podendo necessitar de uma dieta caseira para a vida. Esta dieta caseira deverá ser aconselhada por um médico veterinário nutricionista para garantir que todas as necessidades do cão estão a ser preenchidas.

Quando não há possibilidade de fazer dieta, pode utilizar-se medicação como corticos e anti-histaminicos na tentativa de controlar os sintomas. No entanto, os resultados desta terapia são variáveis e administração a longo-prazo pode resultar em efeitos secundários graves. O ideal será sempre realizar o tratamento pela dieta.

Prognóstico da alergia alimentar em cães e gatos

O prognóstico da alergia alimentar é bom. O tratamento consiste em evitar os alimentos alergénios. O animal deverá ser seguido em consultas a cada 3 a 4 semanas.

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