Dermatite Atópica Canina (Atopia Canina): como se trata?

cão braquicefálicoO seu cão coça-se muito?  Suspeita que tenha uma alergia de pele? Poderá tratar-se de dermatite atópica canina!

O que é a dermatite atópica canina?

A dermatite atópica canina é uma dermatite alérgica a alergénios ambientais que levam ao aparecimento de inflamação da pele com prurido intenso.

Cães com predisposição genética têm um defeito na barreira da pele. Assim entram em contacto com um alergénio ambiental que normalmente não causa reacção.

O organismo reage libertando imunoglobulinas IgE e IgG originando uma resposta alérgica inflamatória na pele (hipersensibilidade de tipo I).

Pensa-se que esta alergia afecta 10% dos cães. No entanto não se sabe o número certo uma vez que os donos podem não levar ao veterinário cães com sintomas leves.

Poderá observar algum dos seguintes sintomas:

  • Inflamação;
  • Comichão (prurido);
  • Vermelhidão ou pustulas;
  • Mordiscar ou coçar;
  • Otites recorrentes;
  • Infecções de pele recorrentes;
  • Alterações na pele (ex. engrossamento da pele);
  • Alopécia e arranhões;
  • Conjuntivite;
  • Lamber entre os dedos ou na região abdominal.

 

Que cachorros estão em risco de desenvolver atopia canina?

Como a doença tem um carácter genético, poderá ser mais frequente em famílias ou em algumas raças de cães. É detectada principalmente entre o 1º e 3º ano de idade. No entanto poderá aparecer em cães idosos que mudem de ambiente (ex. mudança de casa) e sejam expostos a novos alergénios.

A predisposição parece também envolver uma maior tendência para uma resposta com elevada IgE, o contacto precoce com o antigénio (ex. nascimento em alturas de pólen) ou a presença de doenças parasitárias.

  • Boxers;
  • Bulldog Inglês e Francês;
  • Chihuahuas;
  • Terriers (Yorkshire Terriers, West Highland White Terrier; Caim Terrier, Terrier Escocês; Boston Terrier);
  • Golden Retrievers;
  • Pastor Alemão;
  • Dálmatas;
  • Labrador retriever;
  • Cocker Spaniel;
  • Pugs;
  • Shar Pei;
  • Setter (Gordon, Irlandês, Inglês);
  • Lhasa Apsos;
  • Shih tzus;
  • Miniature Schnauzer;
  • Belgian Tervurens;
  • Shuba inus;
  • Beaucerons;
  • Chow-Chow.

Apesar de os sinais aparecerem entre o 1º e o 3º ano, algumas raças podem ser precoces. Raças como Akita, Chow-Chow, Golden Retriever e Shar Pei poderão apresentar sinais de atopia a partir dos 2 meses.

 

Como se desenvolve a dermatite atópica canina?

O cão entra em contacto com o alergénio por via cutânea ou respiratória. Mais raramente poderá ser através da ingestão.

Os alergénios que poderão estar envolvidos na dermatite atópica canina são:

  • Ácaros do pó ou do armazenamento;
  • Pólens;
  • Fungos (esporos do mofo);
  • Descamação de animais (pele ou penas);
  • Algodão, linha, lã.

No entanto os ácaros e os pólens são os mais frequentes. Os restantes alergénios são raros e ainda existe pouca evidência do seu papel na atopia canina.

atopia canina
Os ácaros e o polén são os principais alergénios envolvidos na atopia canina.

Após este contacto, o sistema imune reage e liberta imunoglobulinas IgE e IgG que estão envolvidas no aparecimento dos sinais observados.

O primeiro sinal é a comichão (prurido) sem mais lesões ou com eritema. A excepção à regra é o Bulldog inglês em que se inicia com eritema, edema e lesões secundárias mas com pouco prurido.

O prurido intenso leva o animal a coçar e a morder, o que poderá originar feridas como arranhões que pioram o estado a pele e a predispõem a sinais secundários.

Esses sinais poderão passar por infecção secundária da pele por bactérias (pioderma, foliculite) ou por dermatite por Malassezia.

Por outro lado, a pele reage à agressão crónica e aparece descamação (seborreia), escurecimento, engrossamento, falta de pelo (alopécia por coçar), pápulas e pústulas, entre outros.

Esta progressão leva a que os sinais piorem com o tempo.

Cerca de 75% dos cães atópicos ainda poderão sofrer simultaneamente de Dermatite Alérgica à Picada de Pulga. Alguns ainda poderão padecer de alergias alimentares.

Com se faz o diagnóstico da Dermatite Atópica Canina?

O diagnóstico da atopia canina é normalmente um diagnóstico clínico. Baseia-se nas lesões apresentadas pelo cão e na exclusão de outras causas. A presença de prurido é a principal suspeita.

Deverão excluir-se doenças semelhantes como:

Excluindo-se estas patologias, passa-se a avaliar a presença de atopia canina que deverá apresentar alguns destes sinais:

  • Prurido em cães dos 6 meses a 3 anos;
  • Prurido que responde a corticoides;
  • Pododermatite (inflamação na pele das patas);
  • Eritema na cabeça e orelhas;
  • Eritema na boca.

Dependendo do alergénio, o prurido poderá ocorrer todo o ano (como no caso dos ácaros) ou durante certas estações (como no caso do pólen).

A distribuição das lesões pelo corpo do cão é variável. Poderá envolver todo o corpo. Ou poderá estar localizada, sendo as áreas mais frequentes a face, cabeça, abdomen, patas, virilhas, tronco e axilas.

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Áreas afectadas na dermatite atópica canina localizada.

Dependendo do tempo em que se iniciou, poderá ter lesões secundárias por coçar-se ou complicar-se com otite bilateral ou infecções da pele.

Poderá fazer-se a determinação do alergénio apenas quando se quer fazer dessensiblização ou evitar o contacto. Para tal, utilizam-se testes ELISA ou intradermorreacção onde se injecta alergénios subcutâneos e se avalia a resposta.

Qual é o tratamento da Dermatite Atópica Canina?

A dermatite atópica canina é uma patologia que poderá ser controlada recorrendo a meios farmacéuticos e evitando o alergénio. No entanto, não é curável.

Faz-se tratamento com fármacos que reduzam o prurido e inflamação e evita-se ao máximo o contacto com alergénio. Para além destas duas estratégias, ainda se deverão controlar factores que agravem a reacção imune do corpo, como por exemplo parasitas.

Evitar o contacto com o alergénio

Evitar o contacto com o alergénio é na maioria dos casos difícil. Muitos dos alergénios estão presentes no ambiente e pouco poderá ser feito para os evitar.

No entanto, no casos de alergénios raros como penas (em aves ou em almofadas), descamação de gatos, jornais e tabaco é fácil removê-los do ambiente do cão.

Como os casos mais frequentes envolvem alergia a ácaros e pólen, trataremos destes em maior pormenor.

Ácaros

Os ácaros vivem no pó e nos tecidos, principalmente em áreas húmidas e escuras.

Para evitar o contacto com ácaros poderá ter-se uma higiene esmerada da casa. Isto implica aspirar e lavar todos os tecidos com frequência.

Em alternativa, deve preferir mobiliário sem tecidos optando, por exemplo, por peles. O chão deverá ser polido, evitando-se carpetes.

Deverão optar-se por camas ou tecidos hipoalergénicos ou cobrir almofadas e colchões com coberturas impermeáveis.

A ventilação da casa e redução da húmidade poderão dificultar o crescimento dos ácaros.

Por último, um tratamento com acaricida poderá reduzir 70 a 90% dos ácaros vivos na casa durante um mês. No entanto os ácaros mortos mantêm-se no ambiente causando alergia. Esta estratégia poderá ser aliada a uma limpeza profunda da casa eliminando os ácaros mortos.

Pólen

O cão poderá ser sensível a vários tipos de pólen. Por isso é importante fazer a sua identificação.

Sabendo-se qual planta ou tipo de plantas (ex. gramídeas) estão envolvidas no processo alérgico torna-se mais fácil evitá-las.

Assim, evita-se passeios longos durante a altura do ano em que ocorre a polinização dessas plantas.

Evita-se frequentar zonas onde essa vegetação ocorra.

Em dias de vento, o pólen é espalhado com maior facilidade. Por isso as saídas também deverão ser reduzidas nestes dias.

Tratamentos médicos que podem ajudar no controlo da atopia canina.

Tratamento tópico

Os tratamentos tópicos passam pela aplicação de medicamentos tópicas nos locais afectados e nos banhos frequentes.

A aplicação de cremes anti-prurido permite o tratamento de lesões tópicas evitando a maioria dos efeitos secundários. Estes cremes são normalmente à base de glucocorticoides, triamcinolona e tacrolimus.

Os banhos deverão fazer-se a cada 1 a 2 semanas com água fresca. Permitem remover os alergénio da pele, controlar infecções e hidratar a pele. Deverão ser usados champôs hipoalergénicos, de preferência contendo aveia coloidal.

Tratamento farmacológico

Neste tratamento espera-se reduzir os sintomas da dermatite atópica canina. Poderão ser utilizados vários fármacos:

Esteróides (prednisolona, metilprednisolona): utilizados a curto-prazo para reduzir o prurido utilizando-se a dose mais baixa que obtenha resultados. Pode ser dado em comprimido. Se utilizado a longo-prazo pode originar doenças metabólicas.

Anti-histaminicos (hidroxizina, clorfeniramina): menos eficazes em animais e especialmente no cão. Podem causar sedação que reduz a actividade e consequentemente o coçar.

Ciclosporina: tratamento inovador que tem efeito imunossupressor. Pode reduzir o prurido crónico, mas a eficácia é variável.

Imunoterapia

Quando o período com prurido excede os 3 meses no ano ou os métodos tradicionais não permitem controlo faz-se a dessensibilização.

É dos poucos métodos que poderão reduzir a alergia definitivamente. A resposta a este tratamento varia entre os 50 a 80%.

Para que se possa fazer este tratamento deverá identificar-se o alergénio pelos métodos falados anteriormente.

A hipossensibilização passa então pela injecção subcutânea de baixas quantidades do alergénio.

É frequente a utilização de alergénios aquosos em multiplas aplicações, não excedendo as 2 semanas entre as doses inicialmente. Outras formas que poderão ter maiores intervalos entre aplicações são na forma de alergénios precipitados ou alergénios em emulsão.

A injecção repetida de baixas quantidades de alergénio em doses crescentes permite reduzir a severidade da resposta alérgica. Ou seja, o cão poderá ter na mesma uma resposta alérgica quando entra em contacto com o alergénio, mas será mais leve.

No inicio, ao tratamento poderá aliar-se glucocorticoides para controlar o prurido intenso.

A imunoterapia é um processo lento que requer múltiplas exposições ao alergénio injectável. Os resultados poderão ser visíveis apenas dentro de 6 meses a 1 ano.

No entanto deverá ser considerada, uma vez que é a única forma de reduzir definitivamente a alergia.

Dieta

As dietas ricas em ácidos gordos permitem ajudar à recuperação da pele. Mesmo em animais saudáveis por vezes faz-se suplementação com óleos vegetais para obter um pelo brilhante.

No caso da atopia canina, dietas ricas em Omega 3 e Omega 6 parecem ser as mais vantajosas e por vezes permitem reduzir as doses da medicação para o controlo. Este efeito observa-se a partir de dois meses.

Acompanhamento

Como qualquer tratamento de uma doença crónica, a dermatite atópica canina requer acompanhamento pelo médico veterinário.

Assim, recomenda-se que após se iniciar o tratamento o cão seja visto pelo médico veterinário nas próximas 2 a 8 semanas.

Isto permite avaliar o sucesso do tratamento e ajustar a medicação. Faz-se principalmente a monitorização da intensidade do prurido e estado das lesões secundárias.

Estando a medicação ajustada e os sinais controlados, o cão necessitará de uma visita à clinica veterinária a cada 3 a 12 meses. 

Nesta consulta poderão ainda ser pedidas análises ao sangue e urina para controlar os efeitos secundários da medicação. Estas são especialmente recomendadas quando esteroides ou ciclosporina fazem parte do tratamento.

Conclusão

A dermatite atópica canina é uma doença alérgica sem cura mas que poderá ser controlada.

Isto implica consultas veterinárias frequentes e a dedicação do dono para dar a medicação de forma correcta.

No entanto, a sua dedicação pode fazer milagres. Um cão tratado não vai estar a sofrer com a comichão permanente e poderá viver uma vida normal e feliz.

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