Investigação sobre rações grain free na doença cardiaca canina

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Há cerca de um ano, a Food and Drug Administration (FDA), reportou e começou a investigar a associação de uma doença cardíaca ao consumo de rações sem grãos, ou grain free. A FDA é a agencia dos EUA responsáveis pelos controlos alimentares, incluindo das rações animais.

A cardiomiopatia dilatada é uma doença cardíaca que causa perda de energia, tosse, dificuldades respiratórias e colapsos ocasionais. Poderá originar a morte quando não tratada devido à perda da função cardíaca.

Após um ano de recolha de dados, a FDA finalmente apresentou o primeiro relatório onde investiga o aumento de casos de cardiomiopatia dilatada em cães e a sua associação a certas rações.

Os casos de cardiomiopatia dilatada canina aumentaram drasticamente

A FDA tem vindo a registar casos de cardiomiopatia dilatada reportados por médicos veterinários convencionais que lhes fornecem estes dados. Este relatório demonstra que de 2014 a 2017 se limitavam a 1 a 3 casos da doença reportados por ano.

O aumento da incidência da cardiomiopatia dilatada inicia-se em 2018, com 320 casos reportados apenas nesse ano. Já em 2019, até agora, reportaram-se 197 casos. É possível que este aumento de casos esteja relacionado com uma mudança adotada por muitos cuidadores, como a mudança de dieta.

É também interessante referir que alguns dos casos reportados incluíam mais do que um animal afetado na mesma casa, o que sugere um fator comum. Já fatores genéticos para a doença são em parte excluídos pelo aumento drástico de casos no último ano, mas ainda poderão estar envolvidos na susceptibilidade individual.

Os cães são os mais afetados, especialmente da raça Golden Retriever

O relatório aponta para que se tenha registado um total de 560 cães afetados, dentre os quais quase um quinto tenha perdido a vida devido à cardiomiopatia dilatada.

O estudo destes animais revelou que os Golden Retriever apresentaram o maior número de casos reportados (95 casos), devido à uma possível susceptibilidade ou maior alerta dos seus cuidadores. Seguem-se os cães sem raça definida (62), Labradores Retriever (47), e Grand Danois (25).

A maioria dos cães afetados come rações secas comerciais

Na maioria dos casos, os cães eram alimentados com rações secas comerciais (452), havendo ainda poucos, mas alguns, casos de dietas alternativas.

Marcas de rações comerciais mais consumidas por animais que sofreram de cardiomiopatia dilatada, segundo o relatório da FDA.

A FDA tentou identificar um fator comum entre estas rações ligadas a casos de cardiomiopatia dilatada. Recorrendo aos rótulos, as rações foram classificadas como grain free (sem milho, soja, arroz, trigo e outros grãos), contendo ervilhas, leguminosas (ex. lentilhas, grão-de-bico, feijões), ou batata (batata ou batata doce).

Ingredientes mais comuns nas dietas associadas ao aparecimento de cardiomiopatia dilatada em cães e gatos.

Mais de 90% dos produtos era considerado grain free e também mais de 90% continha ervilhas e/ ou leguminosas. Já uma proporção mais pequena continha batata ou batata doce.

Em relação às fontes de proteína animal, estas eram diversas e muitas rações incluíam mais do que uma fonte proteica. As proteínas mais comuns eram de frango, borrego e peixe. No entanto, algumas rações tinham fontes menos convencionais de proteínas, como kanguru e bisonte.

O teste da composição nutricional das rações não revelou anormalidades

Uma das hipóteses colocadas para o desenvolvimento da cardiomiopatia dilatada nestas dietas era a falta do aminoácido taurina, ou dos seus percursores, a cisteína e metionina. Quase todas as rações sem grãos apresentavam estes aminoácidos acima dos requisitos nutricionais mínimos.

O teste dos macro nutrientes, minerais e destes aminoácidos nas rações sem grãos foi similar ao das rações contendo grãos. No entanto, testes ainda decorrem para avaliar o equilíbrio nutricional.

O que podemos interpretar destes dados?

Na nutrição animal, o foco está no equilíbrio de nutrientes independentemente da sua fonte. Portanto, seria de esperar que rações sem grãos com uma composição nutricional adequada não prejudicassem os animais.

Sugeriu-se que a causa do aparecimento de doença cardíaca em cães alimentados com rações grain free estivesse associado à deficiência num aminoácido, a taurina, ou nos seus percursores, a cisteína e metionina.

Num debate anterior, sugeriu-se que esta deficiência poderia ser causada por vários fatores, incluindo baixa concentração na dieta, baixa biodisponibilidade, e aumento da eliminação em dietas ricas em fibras (através das fezes ou da ação de microrganismos).

Aparentemente, a hipótese de baixa concentração na dieta é contrariado pelos dados apresentados pela FDA. As rações sem grãos apresentaram a mesma concentração destes aminoácidos que as restantes dietas convencionais. No entanto, ainda é preciso esclarecer se estas dietas baseadas em leguminosas apresentam a mesma biodisponibilidade e eliminação destes aminoácidos que as restantes dietas.

O que fazer enquanto cuidador de um cão alimentado com rações sem grãos?

Se opta por alimentar o seu cão com rações sem cereais deverá estar atento ao aparecimento de sinais que possam indicar doença cardíaca. Estes podem revelar-se como perda de energia, tosse e dificuldades respiratórias. Nestes casos, os animais necessitam de um tratamento veterinário urgente. Em casos suspeitos, os cuidadores poderão optar por testes diagnósticos, como a ecografia cardíaca e a determinação da taurina no sangue.

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