Sarna demodecica

Existem diferentes sarnas que afectam os animais. Uma delas é a sarna demodécica, ou demodicose.

O que é a sarna demodécica?

É uma doença parasitária que resulta em inflamação da pele. É causada por um ácaro chamado Demodex. O ácaro Demodex canis encontram-se naturalmente na pele dos cães saudáveis. São transmitidos da mãe para o cachorro logo após o nascimento.

O Demodex faz todo o seu ciclo na pele do animal. Passa por 4 estágios: ovos fusiformes, larvas de seis patas, ninfas de oito patas e o adulto de oito patas.

Vivem nos folículos dos pelos e raramente nas glândulas sebáceas. Alimentam-se de células, sebo e pele descamada. Algumas espécies vivem apenas na superfície da pele.

Quando existe uma desregulação, os ácaros reproduzem-se em elevado número. Podem causar infecções bacterianas da pele e ruptura dos folículos pilosos, originando inflamação da pele.

Portanto, o cão tem que apresentar condições favoráveis para permitir o desenvolvimento de elevados números de ácaros na sua pele. Poderão ser factores genéticos ou disfunções imunológicas, por exemplo.

Como faz parte dos flora cutânea normal, não é contagioso. A população é normalmente controlada pelo sistema imunitário do hospedeiro. Apenas quando há desregulação, o Demodex aumenta em número e causa sarna.

 

Transmissão da sarna demodécica

O ácaro Demodex faz parte dos organismos que naturalmente habitam a pele e canal auditivo do cão saudável. Só causam patologia quando há um desequilibrio que permite a sua multiplicação desmensurada.

A colonização da pele por Demodex ocorre no 2º a 3º dia de vida pelo contacto com a mãe. Em cachorros, encontram-se inicialmente no focinho reforçando a transmissão pela mãe durante a amamentação.

A transmissão através do ambiente é pouco provável. No ambiente, os ácaros sofrem dissecação e morrem rapidamente. Por outro lado, em laboratório demonstraram conseguir sobreviver um mês fora do hospedeiro, mas perderam a sua capacidade de parasitar animais.

Factores predisponentes à sarna demodécica

Uma vez que todos os cães possuem Demodex na sua fauna cutânea, porque é que alguns apresentam sintomas? Pensa-se que esteja relacionada com saúde e eficiência do sistema imune do animal.

Depressão do sistema imunitário por patologias sistémicas ou fármacos (ex. corticosteroides) podem favorecer a multiplicação do ácaro. Alguns factores a considerar são: a idade, o tipo de pelo, a nutrição, o estro ou parto, stress, parasitas e patologias debilitantes concorrentes.

Por outro lado, a sarna demodécica canina é mais comum em algumas raças de cães. As raças com maior predisposição para esta sarna canina são:

  • Sha pei
  • West Highland
  • White Terrier
  • Scottish Terrier
  • Bulldog inglês
  • Boston Terrier
  • Grand Danois
  • Weimaraner
  • Airedale Terrier
  • Alaskan Malamute
  • Galgo afegão
  • Doberman pinscher

Algumas linhagens de cães são mais afectadas. Esta predisposição hereditária foi observada em alguns canis. Em ninhadas afectadas, alguns cachorros apresentam a doença.

Quando se identifica um cão portador dessa predisposição deve ser afastado da reprodução e castrado. Assim podemos prevenir a passagem às novas gerações da raça e evitar o sofrimento dos animais.

Antes de adoptar um cão de criador deve sempre tentar informar-se sobre a ocorrência de casos de sarna demodécica anteriores.

A predisposição hereditária da sarna demodécica pode estar relacionada com um defeito no sistema imune. Estudos apontam para deficiências na acção de células imunes (linfócitos T) ou na leitura de mediadores inflamatórios (IL-2).

Tipos de sarna demodécica

A sarna demodécica divide-se em dois tipos: localizada e generalizada. É considerada como sarna demodécica localizada quando o animal apresenta 6 ou menos lesões localizadas numas área corporal. Mas esta determinação ainda é discutida pelos médicos veterinários.

Por outro lado, existe a sarna demodécica juvenil que aparece em animais jovens entre os 3 a 8 meses. Esta pode aparecer numa das duas formas descritas, sendo mais frequente a forma localizada.

A sarna demodécica juvenil deve-se à quebra na imunidade no animal jovem após o desmame. Quando o sistema imunitário regressa à sua capacidade, a sarna desaparece. Por isso esta forma é auto-limitante e cura-se sem tratamento.

Sarna demodécica localizada

A sarna demodécica é considerada localizada quando existem menos de 6 lesões numa área corporal. As áreas afectadas são a cabeça, principalmente a área periocular e envolvente à boca, e nos membros, principalmente nos membros anteriores.

Aparece principalmente entre os 3 e os 6 meses. Apresentam áreas circunscritas de eritema, alopécia (falta de pelo) e descamação, podendo apresentar prurido. Geralmente são lesões benignas que se resolvem espontaneamente.

É raro ocorrerem em outros locais ou progredirem para sarna demodécica generalizada. A progressão também poderá afectar o canal auditivo, causando otite externa ceruminosa.

Normalmente cura-se sem tratamento em 2 meses, quando o animal se torna imunocompetente. Durante esse período, as lesões podem sofrer remissão e aparecimento. Após cura, o pêlo recomeça a crescer nessas áreas em 30 dias. A recorrência é rara uma vez que o sistema imune passa a ser capaz de controlar a população de ácaros.

Sarna demodécica generalizada

A sarna demodécica generalizada, ou demodicose generalizada, ocorre quando a afecta uma grande área do corpo. Normalmente inicia-se em áreas circunscritas, semelhante à localizada, espalhando-se posteriormente ao resto do corpo. É uma patologia severa que pode ter um fim dramático.

Em animais jovens, normalmente inicia-se entre os 3 e os 18 meses, quando não há resolução da sarna demodécica com a entrada na idade adulta. Se aparecer em jovens, é provável que se trate de um defeito hereditário que permite a multiplicação do ácaro. Nesses casos o animal não se deverá reproduzir para evitar passar esta característica.

Em animais adultos, normalmente é identificada entre os 2 e 5 anos. A maioria dos casos deve-se à presença de patologias crónicas subjacentes que não foram diagnosticadas. Nestes casos, o sistema imunitário está deprimido e permite a multiplicação do ácaro.

Algumas doenças ou tratamentos provocam imunossupressão. Exemplos de doenças que podem cursar com sarna demodécica secundária são hipotiroidismo, hiperadrenocorticismo, leishmaniose e neoplasias. Por este motivo, doenças sistémicas ou dermatológicas devem ser sempre procuradas em cães adultos.

Em adultos com mais de 4 anos, é provável que apresentem uma resistência baixa aos ácaros permitindo a sua multiplicação. Podendo estar presente também o factor hereditário.

Os sintomas desta sarna demodécica consistem em alopécias circunscritas ou que afectem todo o corpo. Pode apresentar ainda descamação, eritema, pápulas e pústulas. O prurido ocorre em alguns casos. As lesões podem ser localizadas numa área corporal ou envolver todo o corpo.

Inicia-se na cabeça, patas e tronco como áreas circunscritas que progressivamente se expandem e coalescem com as vizinhas formando lesões maiores. A afecção do folículo por Demodex pode gerar foliculite ou pontos negros.

Os gânglios linfáticos podem estar aumentados. Com a evolução, as lesões podem ficar infectadas com bactérias (piodermite), e formar edema, crostas e placas. A formação de nódulos é descrita em Bulldog inglês.

As lesões da cabeça e pescoço podem ser as mais severas. Com a progressão da doença, em alguns meses a pele encontra-se infectada, coberta por crostas, com hemorragias e lesões folículares. A dificuldade no tratamento, aliada à estas lesões severas e ao sofrimento do animal levam muitos donos a optar pela eutanásia nestes casos.

Pododermatite demodécica

A pododermatite demodécica consiste em lesões provocadas por Demodex confinadas às patas. Tal como as restantes, deve-se ao elevado número de ácaros presentes.

Podem ser secundárias à sarna demodécica generalizada. Após cura, a infestação mantêm-se na área das patas dando origem a esta patologia.

Por outro lado, pode aparecer apenas nas patas sem nunca ter afectado outras área corporal. Estes casos acontecem, por exemplo, em cães Old English.

As lesões apresentam-se como as descritas anteriormente, com alopécia e eritema. Devido à localização, estas lesões frequentemente apresentam infecções bacterianas secundárias.

Em cães grandes, como Grand Danois ou São Bernardo, podem provocar dor e edema. Raramente aparecem casos de pododermatite demodécica resistentes ao tratamento e que se apresentam como crónicas.

Espécies de Demodex que afectam o cão:

  • Demodex canis: comum no folículo piloso dos cães e pode provocar a sarna demodécica comum.
  • Demodex injai: vive nas glândulas sebáceas dos cães e pode provocar seborreia gordurosa (descamação gordurosa) na zona dorsal.
  • Demodex cornei: habita a superfície da pele do cão e provoca seborreia seca (descamação) e prurido moderado na zona dorsal. Poderá ser uma variante do Demodex canis.

Diagnóstico da sarna demodécica

A maioria dos métodos de diagnósticos consiste na apresentação das lesões bem como na identificação do parasita ao microscópio. Como faz parte da flora cutânea canina, a identificação de um ácaro ocasional é normal em pele sã.

Em animais que sofram de sarna demodécia, o número de ácaros será elevado e poderão identificar-se formas imaturas, como ovos, larvas ou ninfas. Como os ácaros estão profundamente na pele, é necessário fazer uma recolha profunda.

Por vezes, espremer a pele antes da recolha ajuda a que os ácaros fiquem mais superficiais. Para se identificar o ácaro no folículo, deve-se fazer uma raspagem profunda ou recolher pelos da zona.

  • Raspagem profunda da pele: usando-se uma lâmina de bisturi faz-se uma raspagem da pele afectada até sair um pouco de sangue. Isto permite recolher os ácaros que se encontram profundamente na pele, nos folículos pilosos. Em gatos e para confirmar a ausência da patologias devem ser realizadas múltiplas raspagens.
  • Tricografia: recolha de pelos utilizando uma pinça e observação do pelo ao microscópio.
  • Biópsia: quando há suspeita e os métodos anteriores não permitiram confirmar a suspeita.

Outras doenças que podem ser confundidas com sarna demodécia e por isso são diagnósticos diferenciais são: dermatofitose, pioderma generalizada, abrasões superfíciais, folículite, dermatite de contacto, penfigus, lupus eritematoso, dermatomiosite.

Tratamento da Sarna demodécica

Esta patologia se deve ao desequilíbrio com multiplicação dos ácaros. Logo o tratamento tem como objectivo reduzir o número de ácaros e restaurar o balanço da pele.

Parte desse trabalho é realizado pelo sistema imunitário. No entanto, em casos provocados por doenças ou por defeitos hereditários, será preciso ajudar o sistema imunitário a combater o Demodex.

Apesar do elevado prurido apresentado, é geralmente contra-indicado o uso de corticoides. Estes deprimem o efeito do sistema imunitário. No entanto existem algumas excepções. Em casos muito pruriginosos utiliza-se prednisona por uma semana em dias alternados.

Tratamento da sarna demodécica localizada

Esta forma é auto-limitante e cura-se espontaneamente dentro de 6 a 8 semanas. A utilização do tratamento não torna mais rápida a recuperação nem previne a sua evolução para a forma generalizada. Logo não é necessário fazer tratamento.

No entanto, poderá ser aplicado um parasiticida ou fazer-se a limpeza da pele com gel de peróxido de benzoílo. Mas estes tratamentos poderão piorar o aspecto da lesão.

O animal deve ser acompanhado por um médico veterinário a cada 2 a 4 semanas. É preciso controlar a evolução das lesões e a possibilidade de passar a sarna demodécica generalizada.

Em cada visita, o número de ácaros deverá reduzir-se progressivamente. Se as lesões progridem e se espalham, e o número de ácaros aumenta, poderá ser sinal da forma generalizada.

Tratamento da sarna demodécica generalizada

Cerca de 90% dos casos podem ser controlados com tratamento intenso por longos períodos de tempo. Raramente, em cães jovens, pode ocorrer recuperação espontânea.

Um grande factor na cura do animal é a sensibilização do dono. É importante que este saiba que o tratamento é longo e custoso. Será necessário investimento financeiro e muito tempo na cura.

Poderá ser frustrante o tempo que se leva até ver resultados. E após aparecerem os resultados, a terapia ser terminada de imediato. Interromper o tratamento cedo demais é levará a recorrência da doença e provavelmente a tornará mais difícil de tratar.

É frequente existirem recorrências durante o período de estro nas cadelas. Estas poderão ser evitadas através da castração. Outros factores que debilitem a saúde do cão deverão ser controlados, e o maneio melhorado.

Para facilitar a penetração do tratamento contra os ácaro pode-se cortar o pêlo. No entanto tenha em consideração que o pelo longo leva vários meses a crescer.

Pode-se fazer lavagem com champôs para remoção de crostas e bactérias da pele. Com frequência é utilizado o peróxido de benzoílo que permite limpar os folíolos da pele. No entanto pode ter uma acção irritante.

O animal deverá ser visto pelo veterinário a cada 2 a 4 semanas para avaliar a eficácia do tratamento. A cura das lesões ocorre antes da cura parasitológica. Pelo que o tratamento deve ser continuado por 30 dias após se obter uma raspagem de pele negativa ao ácaro.

Para a raspagem ser válida, deve incluir áreas na face e patas e devem ser avaliados no mínimo 4 a 6 locais. A infecção da pele e descamação só serão curadas com a erradicação do ácaro. No entanto, utilizam-se por vezes antibióticos durante 6 a 8 semanas.

A eliminação do Demodex consiste na aplicação repetida de acarícidas:

  • Amitraz: pode ser aplicado em banhos semanais sem enxaguar, aplicação através de esponjas, ou em casos recorrentes, banhos diários em que se aplica apenas em metade do animal em cada dia.
  • Avermectinas e milbemicinas (ex. ivermectina, milbemicina): podem ser aplicadas em injecção ou pipetas, e em caso de relapso nos primeiros 3 meses, instituída uma dose maior. É necessário ter em atenção a aplicação em animal positivos para dirofilariose, uma vez que pode obstruir os vasos sanguíneos, ou em raças sensíveis, como Collie e Shetland.

Pododermatite demodécica

O tratamento da pododermatite demodécica consiste na aplicação de creme de amitraz nas zonas afectadas diariamente.

Sarna demodécica em gatos

A sarna demodécica em gatos pode ser provocada por duas espécies:

Demodex cati

Apresentação semelhante ao Demodex canis (descrito acima) mas mais raro. Afecta principalmente a área periocular, cabeça e pescoço. Forma zonas de alopécia com eritema, crostas e prurido.

Tem uma apresentação limitada e pode ocorrer como otite externa. A forma generalizada é rara e não tão severa como nos cães. É mais comum em Siameses e Burmeses.

Normalmente apresenta-se associada a outras patologias, como diabetes, FeLV, FIV, lupus eritematoso, etc.

Pode responder a tratamento suaves, como campos parasisticidas (ex. carbaril, rotenona, malatião) ou a produtos utilizados para ácaros dos ouvidos. Outros tratamentos envolvem a injecção mensal com doramectina ou banhos semanais com amitraz.

Demodex gatoi

Vive na superficie da pele do gato. Como os gatos se lambem devido ao prurido, pode ser difícil de identificar.

É o único Demodex suspeito de ser contagioso. Normalmente quando aparece um gato afectado, seguem-se os seus co-habitantes felinos. Logo todos os gatos da casa deverão ser avaliados e tratados.

A lesões apresentam-se com crostas, prurido, alopecia e escoriações, principalmente na cabeça, pescoço e cotovelos. Como é pruriginoso, o gato lambe-se originando alopécia auto-induzida. Algumas formas aparecem como eritema multifocal nos quartos traseiros do animal.

O tratamento consiste em banhos semanais com sulfuro de cal em todos os gatos da habitação ou aplicação de amitraz.

Demodex: a sarna humana?

Apesar de não ser transmitido pelo contacto com os animais, os humanos podem ter Demodex. Tal como no cão, espécies deste ácaro colonizam naturalmente a pele humana sem provocar patologia.

Foram identificadas duas espécies: Demodex brevis e Demodex folliculorum. São adquiridos no final da infância ou inicio da idade adulta através do contacto com familiares adultos.

Os ácaros habitam nos folículos sebáceos humanos, principalmente na face. Alimentam-se de sebo e bactérias presentes no folículo. Portanto podem beneficiar o humano, vivendo em simbiose.

Em que grau nos encontramos parasitados é difícil dizer. Um estudo conduzido nos Estados Unidos com uma pequena amostra (370) revelou a presença de espécies de Demodex na pele de cerca de 50% dos voluntários.

Condições ideais, como certas características da pele e depressão da imunidade, podem favorecer a proliferação do ácaro na pele. O aumento do seu número pode causar lesões na pele e distensão e ruptura dos folículos, causando patologia.

A sua relação com algumas patologias cutâneas ainda está a ser estudada. Por exemplo, na pele de pacientes com rosácea foram encontrados elevados números de Demodex. No entanto são precisas mais informações sobre as suas influências nas patologias cutâneas.

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