Conjuntivite por Clamídia em gatos (Clamidiose felina)

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A conjuntivite por clamídia em gatos (Clamidiose felina) é uma doença que afeta os olhos dos gatos, causando inflamação da conjuntiva e secreções oculares com muco. Ainda poderá afetar o trato respiratório superior. A Chlamydophila felis é muito contagiosa entre gatos, transmitindo-se por contato direto principalmente por secreções oculares infetadas. Ainda não está esclarecido o seu potencial de transmissão ao Homem. O tratamento passa por administração de antibióticos por via sistémica e aplicação de pomadas oftálmicas.

Agente da Conjuntivite por Clamídia em gatos

A conjuntivite por clamídia em gatos é provocada principalmente por Chlamydophila felis (antes chamada Chlamydia psittaci var. felis). No entanto, estudo recentes parecem indicar que outros organismos semelhantes à clamídia podem estar envolvidos, como o Neochlamydia hartmannellae. Alguns estudos demonstram que a Chlamydophila felis pode ter diversos graus de virulência e existem pelo menos duas estirpes felinas.

A clamídia é uma bactéria que vive dentro das células (intracelular). O ciclo da clamídia no organismo compreende uma fase extracelular (fora das células) e uma fase intracelular e metabolicamente ativa. A clamídia reproduz-se no interior das células, libertando-se para o exterior das células potenciado a infeção de outros hospedeiros. A clamídia pode sobreviver fora do organismo alguns dias à temperatura ambiente, mas inativa-se facilmente com detergentes.

 

Transmissão da Conjuntivite por Clamídia em gatos

Ainda não se conhece bem a patogénese da Chlamidophila felis, mas parece ter uma predileção por células da conjuntiva do olho. A transmissão ocorre pelo contacto próximo com gatos infetados, através dos aerossóis libertados para o ar ou através de objetos que estiveram em contacto com animais infetados. As secreções oculares parecem ser o meio mais importante de transmissão da C. felis entre gatos.

Após contato, segue-se a incubação que dura 3 a 5 dias. Os primeiros sinais normalmente aparecem em apenas um olho, podendo tornar-se bilateral. Os sinais tornam-se mais severos aos 9 a 13 dias, e decrescem às 2 a 3 semanas. No entanto os sinais podem ser recorrentes ou durar mais semanas após o tratamento. As secreções oculares são inicialmente serosas (transparentes e liquidas), tornando-se mucosas (espessas e transparentes) ou mucopurulentas (espessas e esbaranquiçadas).

A clamídia tende a ser persistente nos tecidos e a ter um curso crónico com fases assintomáticas. A maioria dos gatos deixa de libertar clamídia após os 60 dias, no entanto já foi isolada mais de 200 dias após infeção, podendo tornar-se persistente.

A clamídia também já foi identificada em órgãos internos e excreções retais e vaginais, indicando que poderá existir uma infeção sistémica que põe em causa o tratamento tópico. A clamídia também poderá estar presente com outras patologias, como na gripe felina e FIV.

Gatos jovens com menos de 1 ano estão mais sujeitos à infeção, ao contrário de gatos com mais de 5 anos que apresentam menor probabilidade de ser infetados, podendo novamente aumentar o risco após os 10 anos.

 

A conjuntivite por clamídia em gatos pode ser transmitida ao Homem?

Ainda não existem provas concretas que a C. felis possa causar conjuntivite em humanos, por isso não está classificada como zoonose. Existem vários relatórios de casos de C. felis estar na origem de conjuntivite, pneumonia, problemas hepáticos, renais e cardíacos no Homem.

No entanto, ainda não foram provados e comparações de donos com gatos infetados e não infetados são semelhantes, não suportando a ideia de que a C. felis está na origem da doença (podendo até estar a ser confundida com outras clamídias).

No entanto, caso a C. felis seja zoonose (ou por precaução) pode ser prevenida através da higiene e tratamento rápido dos animais afetados. Não tocar nos olhos e lavar sempre as mãos após tocar no gato é uma forma simples de proteção. Estas medidas são especialmente importantes para as populações humanas imunossuprimidas.

 

Sinais clínicos de Conjuntivite por Clamídia em gatos

Os principais sinais da clamídia em gatos estão associados à infeção da conjuntiva do olho (conjuntivite), podendo ser agudos ou crónicos. Assim, é comum os gatos fecharem os olhos com o desconforto (blefarospasmo), terem a conjuntiva inflamada e inchada (quemose), avermelhada (congestão) e libertarem um exsudado seroso (como lágrima) a mucopurulento. Poderão aparecer sinais transientes que incluem febre, perda de peso e falta de apetite (anorexia) . Assim, os sinais mais associados a clamídia em gatos incluem:

  • Conjuntivite;
  • Secreção ocular serosa ou mucopurulenta;
  • Blefarospasmo;
  • Inchaço da conjuntiva (quemose);
  • Desconforto ocular;
  • Espirros;
  • Febre, falta de apetite, e perda de peso transiente;
  • Descarga nasal leve;

A conjuntivite em gatos raramente está associada com queratite. A presença de vírus da gripe dos gatos ou coinfecção com outros agentes deverá ser considerada se o gato com conjuntivite também apresenta úlcera da córnea.

Bactérias da família da clamídia também tem sido associada a doenças reprodutivas em outros animais. No entanto, ainda não está provado que a clamídia possa causar aborto e infertilidade em gatos. Também há suspeitas que a clamídia felina cause peritonite, gastrite, sintomas respiratórios e mancar.

Pneumonia por clamídia em gatos

A clamídia em gatos provoca também sinais ao nível respiratório, como a rinite, o que leva à sua classificação errónea como pneumonia pois raramente a provoca. Poderá provocar inflamação da mucosa do nariz, seios paranasais e garganta.

 

 

Diagnóstico da conjuntivite por clamídia em gatos

Os sinais clínicos não são suficientes para diferenciar uma conjuntivite por clamídia de outros agentes que provocam conjuntivite em gatos, como o herpes vírus felino. Por isso é necessário fazer uma identificação do agente causador da conjuntivite.

Pode-se fazer uma identificação microbiológica por observação microscópica de um esfregaço da conjuntiva, feito com ajuda de uma zaragatoa. No entanto, este método pode facilmente induzir em erro pois a clamídia intracelular pode ser confundida com estruturas normais. Também poderá ser feita a cultura de células, mas é pouco usada devido ao tempo e custo.

Medição dos anticorpos no soro usando imunofluorescência parece ser eficaz nas infeções recentes. Mas passado algum tempo da infeção torna-se menos fiável e não é possível utilizar em gatos vacinados. Kits ELISA para determinar antigénios (marcadores da bactéria) que permitem detetar a presença de clamídia com uma eficácia variável. Estes testes são práticos de aplicar, especialmente quando outros métodos não estão disponíveis.

Diagnósticos com PCR (sequenciação genética) são rápidos, baratos e sensíveis – e por isso recomendados. As amostras são colhidas da conjuntiva com uma zaragatoa e analisadas. O maior problema com este teste é ser tão sensível que poderá detetar pequenas contaminações com materiais presentes no ambiente durante a cultura. Este problema pode ser avaliado tendo cuidados e usando uma zaragatoa sem amostra como controlo.

 

Tratamento da conjuntivite por clamídia em gatos

O tratamento envolve a aplicação de antibióticos para eliminar a bactéria. As tetraciclinas, especialmente a doxiciclina, aplicadas de forma sistémica (injeção ou comprimido) durante 3 semanas são os antibióticos mais eficazes na eliminação da C. felis.

É preciso ter atenção à doxiciclina, que não deverá ser administrada em animais em crescimento. O tratamento sistémico, e não tópico, parece ser o mais eficaz, uma vez que estudos recentes apontam para distribuição sistémica da clamídia no corpo do gato.

O tratamento poderá ultrapassar as 3 semanas e é recomendado que se prolongue até 2 semanas após a cura para eliminação total da clamídia. Isto porque em infeções crónicas os organismos parece ser mais difícil de eliminar.

Todos os gatos devem ser tratados e a higiene mantida para evitar contaminação. Isto pode ser difícil de aplicar em grande escala quando existem muitos animais na mesma residência. Coinfecções com outros vírus ou bactérias podem dificultar a cura e, por isso, devem também ser tratados.

Tratamentos tópicos com aplicação de pomadas oftálmicas contendo antibióticos, especialmente tetraciclinas e cloranfenicol, também é recomendado. O tratamento tópico deve ser aplicado várias vezes ao dia (normalmente três) durante 7 a 10 dias, até os sinais desaparecerem. Durante o tratamento, deve evitar-se o contacto com outros gatos para evitar a propagação da doença ou a sua reinfeção.

 

Prevenção da conjuntivite por clamídia em gatos

As principais formas de prevenção da clamidíose em gatos é através da imunidade por contacto com a doença ou através da vacina, falta de contato com animais infetados e limpeza dos espaços habitados por animais infetados com detergentes e desinfetantes.

A infeção principalmente de animais jovens aponta para uma imunidade protetora, apesar de a imunidade contra clamídia parecer fraca e curta. Os gato jovens parecem receber a sua imunidade através da mãe.

Existem vacinas contra a clamidíase felina. No entanto estas não previnem a infeção ou o aparecimento dos sinais clínicos de conjuntivite. Mas animais vacinados apresentam uma conjuntivite menos severa. Por isso, as vacinas podem ser úteis no controlo de clamídia principalmente em gatarias que sofram com clamídia com frequência. A vacinação deve ser iniciada às 8 a 12 semanas com as restantes vacinas e fazer-se um reforço passado um mês. Depois recomenda-se a revacinação anual.

 

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