Leishmaniose nos gatos: quais os sintomas e tratamento nos felinos

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A leishmaniose é uma doença parasitária por um protozoário, normalmente Leishmania infantum, que poderá afetar animais e seres humanos (zoonose). Os cães têm sido considerados como os principais reservatórios de leishmaniose, mas parece que os gatos também podem estar envolvidos no ciclo de vida do parasita, mas com menor desenvolvimento de doença.

 

Ciclo de vida da leishmaniose

O ciclo de vida da Leishmania spp. requer obrigatoriamente dois elementos: o mosquito Phlebotomus e um animal vertebrado. O mosquito é vetor da doença e transmite-a, na sua forma promastigota, ao animal durante a picada. No vertebrado, o parasita passa à forma amastigota, replicando no interior de um tipo de células imunes, os macrófagos. Um mosquito passa a ser portador quando pica um animal infetado, podendo então transmitir a outros.

Assim, a transmissão da Leishmania está dependente da picada dos mosquitos. Outras formas raras de transmissão poderão incluir transfusões de sangue e a via sexual. Como o aquecimento global favorece as condições ótimas de habitat, o mosquito vetor da leishmaniose está a expandir o seu território podendo acarretar um risco de leishmaniose.

Evitar sair nas horas de maior atividade dos mosquitos, no crepúsculo, bem como a utilização de coleiras repelentes à base de deltametrina, têm sido formas eficazes de reduzir a infeção no cão. No entanto, esta proteção dos cães leva a que os mosquitos procurem outros animais, como os gatos.

 

Risco da leishmaniose para o humano

A leishmaniose é uma zoonose, o que significa que apesar de ser mais comum em animais também poderá afetar o Homem. No ser humano, a leishmania pode causar:

  • Forma cutânea: a mais comum, causando úlceras, cicatrizes e lesões severas;
  • Forma mucosa: afeção das mucosas como nariz, boca e garganta;
  • Forma visceral (Kala-azar): mais severa e fatal se não for tratada, causa febre, perda de peso, aumento do baço e fígado e anemia.

 

Áreas endémicas da leishmaniose em Portugal e prevalência nos gatos

Em Portugal, a prevalência da leishmaniose em cães está mais concentrada nas regiões de Trás-os-Montes e Alto Douro, Lisboa e Setúbal, Beira Interior, Alentejo e Algarve. Estima-se que 20% dos gatos sejam portadores da leishmaniose na região metropolitana de Lisboa. Logo, os gatos também se poderão envolver no ciclo e tornar-se um reservatório do parasita.

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Sintomas da leishmaniose felina

A leishmaniose felina ainda é desconhecida porque existem menos casos de doença. Os gatos são infetados com a Leishmania spp. mas parecem ser mais resistentes ao desenvolvimento de doença, provavelmente devido à maior competência do seu sistema imunitário. Uma vez que o desenvolvimento da doença leishmaniose é dependente da resposta imunitária celular e humoral, uma maior capacidade do sistema imunitário é protetora.

Nos gatos, não parece existir preferência de raça, idade ou sexo para o aparecimento da leishmaniose. Os sintomas da leishmaniose em gatos dependem da sua forma e incluem:

A forma cutânea é a mais comum, com dermatite nodular ou erosiva-ulcerativa, principalmente na cabeça ou pescoço, menos frequente no tronco e pata. Apresentam nódulos sem dor ou úlceras e descamação. Normalmente o gato apresenta-se sem prurido (comichão) e com mau aspeto do pelo.

Na forma oftálmica pode haver envolvimento dos olhos, incluindo o aparecimento de blefarite (inflamação das pálpebras), uveíte (inflamação do interior do olho) e panoftalmia (inflamação de todo o olho).

Esta pode acompanhar-se de aumento dos gânglios linfáticos, perda de peso, falta de apetite, letargia e problemas de gengivas. Sinais menos frequentes incluem desidratação, mucosas pálidas, vómito, febre, icterícia, aumento do consumo de água e de micção, aumento do fígado e baço, aborto, dificuldade respiratória e secreção nasal. Devido à deposição de complexos imunes no rim, a leishmania ainda poderá causar insuficiência renal crónica. Estes sintomas podem aparecer em combinação ou associados à forma sistémica generalizada da leishmania.

 

A leishmaniase nos gatos e outras doenças

A infeção por Leishmania passa a manifestar-se como doença, com sintomas, quando o sistema imunitário não consegue ser eficaz. É esta característica que confere maior resistência aos gatos. No entanto, em caso de doença o sistema imune, e o organismo, estão enfraquecidos e poderão facilitar então o aparecimento da doença pela Leishmania.

Um destes casos é a associação entre o vírus da imunodeficiência felina (FIV) e as infeções por Leishmania em áreas endémicas. Entre os gatos que apresentam doença, é frequente encontrar-se animais com o sistema imunitário debilitado por FIV, por FIV e pelo vírus da leucemia felina (FeLV), cancro, diabetes mellitus, doenças autoimunes e tratamentos imunossupressores (como corticosteroides).

 

Diagnóstico da leishmaniose felina

O diagnóstico da leishmaniose felina inclui citologias e biópsias aos tecidos afetados, bem como análise de sangue e identificação do parasita ou dos anticorpos através de técnicas de PCR, ELISA, e Western blot.

 

Tratamento da leishmaniose felina

Devido à raridade do diagnóstico da leishmaniose felina, ainda não existe um protocolo definitivo para o seu tratamento. Administração prolongada de Alopurinol uma a duas vezes ao dia parece melhorar o estado de saúde, mesmo em gatos FIV. No entanto, se o parasita não for eliminado na totalidade poderá haver recorrência.

O antimoniato de meglumina diário também parece apresentar uma boa resposta clínica. Ao contrário do cão, a combinação destes dois agentes poderá ser tóxica para o gato e não é recomendada.

 

Prevenção da leishmaniose felina

Ao contrário dos cães, a utilização de coleiras de deltametrina não é recomendada nos gatos, sendo tóxica, e não existem ainda vacinas para felinos. Logo, a prevenção baseia-se em evitar o contacto com o mosquito, principalmente ao final da tarde – a sua hora de maior atividade.

Poderá manter o gato no interior e aplicar outro tipo de coleiras repelentes. Manter o gato saudável e com um sistema imune capaz parece também evitar o aparecimento da doença, mesmo após infeção.

 

Referências: Pennisi et al. 2013; Maia et al. 2010

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