O Coronavírus (COVID-19) pode ser transmitido a cães e gatos?

0

Até ao momento não há evidências de que o coronavírus (COVID-19) seja transmitido por animais de companhia. No entanto, existem algumas precauções que deveremos tomar para proteger os nossos animas de companhia e a nossa família. O abandono animal nunca deverá ser considerado como uma resposta ao combate do vírus.

O que é o Coronavírus (COVID-19)?

O Coronavírus (2019-nCoV ou SARS-COV-2) causa sintomas semelhantes à gripe e pneumonia vírica, doença denominada COVID-2019. O vírus teve uma provável origem em animais selvagem. O inicial suspeito era o morcego (Rhinolophus spp.), passando mais recentemente por cobras (Bungarus multicinctus, Naja atra) e pangolins (Manis spp.).

Pensa-se que a transmissão interespecífica animal – humano tenha ocorrido no mercado de Wuhan, província Hubei, na China, onde várias espécies silvestres, vivas ou mortas, convivem em escassas condições de higiene. O 2019-nCoV foi identificado pela primeira vez em Janeiro de 2020.

Quais sãos os sintomas do COVID-19?

Os sintomas são de infeção respiratória aguda, com tosse, dificuldade respiratória e febre. A transmissão entre pessoas é causada através das secreções respiratórias libertadas como pequenas gotículas no ar ao espirrar e tossir. Assim é necessário contacto próximo com infetados para haver transmissão, incluindo partilhar um espaço público próximo.

Como é feito o diagnóstico e tratamento do COVID-19?

O principal diagnóstico do COVID-19 é feito através da colheita de amostras de saliva e secreções nasais com um zaragatoa. Estas amostras são posteriormente analisadas em laboratório. A técnica de PCR envolve a replicação de segmentos do genoma viral para quantidades que poderão ser identificadas, confirmado a presença do vírus no paciente. Em casos de sobrecarga, o diagnóstico poderá ser baseado na sintomatologia.

Atualmente não existe vacina nem tratamento antiviral para o 2019-nCOV. Tal como a maioria dos vírus, o tratamento é sintomático dando tempo ao organismo de combater o vírus. A principal preocupação estende-se à potencial sobrecarga do serviço nacional de saúde em caso de epidemia.

O Coronavírus (COVID-19) é transmitido a ou por animais de companhia?

Os Coronavírus são uma família de vírus comuns. Entre os alfa-Coronavírus destaca-se o coronavírus canino, que causa diarreia suave, e o coronavírus felino, agente da peritonite infeciosa felina. As vacinas existentes contra estes coronavírus em cães não protegem contra o 2019-nCOV, devido à sua variante respiratória. Em humanos existem apenas sete coronavírus capaz de originar doença respiratória, que incluem o SARS-CoV, MERS-Cov e agora o 2019-nCOV.

Os cães e gatos podem transmitir COVID-19?

Apesar da fonte provável ser o animal, até ao momento não há evidencias que a doença possa ser transmitida por animais de companhia, como o cão ou gato, ou a outros animais domésticos. Em áreas afetadas, deverá manter-se afastado de animais desconhecidos e usar a máscara enquanto cuidar do seu animal.

De qualquer das formas, caso suspeite estar doente evite cuidar dos animais e use uma máscara para evitar a transmissão. Se um animal que esteve em contacto com uma pessoa infetada ficar doente, deve contactar o seu médico veterinário.

E o caso do cão em Hong Kong positivo para coronavírus?

Em Hong Kong, foi reportado a 28 de Fevereiro de 2020 um caso positivo fraco para um cão de raça Lulu-da-Pomerânia de 17 anos, que não apresentava sintomas. Apenas as amostras de esfregaços nasais e orais apresentaram resultados positivos, enquanto as amostras fecais e retais foram negativas.

Os testes laboratoriais são baseados na amplificação de marcadores genéticos do vírus, o que poderia indicar apenas contaminação com vírus mortos e não infeção, uma vez que o seu dono sofria de COVID-19.

No entanto, o cão após ser colocado em quarentena por 5 dias ainda apresentava resultados positivos fracos, indicando um fraco nível de infeção, podendo ser o primeiro caso de transmissão humana para animais.

Outra história remonta um Pastor Alemão que também testou positivo sem apresentar sintomas. Outro cão na mesma casa apresentou resutlados negativos. Novamente, o dono encontrava-se infetado com COVID-19, podendo tratar-se de uma contaminação sem infeção.

No entanto, nada indica que o cão pudesse transmitir de novo o vírus a humanos nem que este possa ser a norma com os animais de companhia. Desta forma, ainda é considerado que os animais não contraem ou transmitem o novo coronavírus, sendo recomendado higiene reforçada de qualquer das formas. O COVID-19 não é justificação para o abandono animal.

E o caso do gato na Bélgica?

A 18 de março, a Agencia Federal de Segurança Alimentar da Belgica informou a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Liege da identificação de SARS-CoV-2 (o vírus causador do COVID-19) no vómito e fezes de um gato que apresentava sinais de doença digestiva e respiratória.

Novamente, o dono do gato era uma pessoa infetada com COVID-19. Mais informações sobre a saúde do gato, como a presença de outras doenças que pudessem justificar os sinais clínicos, não foram ligertadas.

Então os animais de companhia poderão ser infetados por COVID-19?

Com a excepção do gato na Bélgica, não há qualquer evidencia de que os animais possam adoecer ou transmitir COVID-19. Esta conclusão é consistente com o que se sabe do SARS e MERS, e do potencial de os animais transportarem o vírus no pelo e mucosas sem serem infetados (tal como as superfícies).

No caso dos cães, sabe-se que esta transmissão é pouco provável devido à forma como o vírus infeta as células. O vírus que causa COVID-19 procura receptores na superfícies das células (ACE1 e TMPRSS2) para as poder infetar. Os receptores dos cães são diferentes dos humanos, o que reduz a eficácia da ligação e infeção pelo vírus, tornando-a pouco provável.

Esta informação é suportada pelo IDEXX Laboratories que anunciam ter testado milhares de cães e gatos sem obter resultados positivos para o vírus do COVID-19. O objetivo da empresa foi validar um teste que pudesse ser aplicado a animais de companhia em caso de necessidade.

No entanto, recomenda-se precaução tendo em conta a situação em desenvolvimento. Estes cuidados são especialmente relativos à higiene pessoal na presença dos animais.

Que precauções devo tomar para me proteger e proteger os meus animais de companhia?

Apesar da falta de evidência acerca da transmissão do coronavírus de humanos a animais de companhia, recomenda-se o seguimento de medidas básicas protetoras.

Cuidados a ter com a higiene

A principal medida é a higiene básica do dono. Deverá lavar as mãos com frequência e especialmente após tocar em animais ou manusear produtos de origem animal.  Deverá tapar o nariz e a boca quando espirra e tosse, idealmente com um lenço, e de seguir fazer a lavagem das mãos.

Cuidados a ter com os passeios dos cães

No casos dos cães que necessitam de passear, faça-o em zonas ou horas pouco movimentadas. Evite o contacto com outros animais e pessoas. Lave as mãos antes e após passear o animal, pois poderá contactar com objetos contaminados. Troque de roupa e tire os sapatos ao entrar em casa.

Também é importante higienizar a trela e coleira, pois poderão contactar com superfícies públicas. As patas dos animais são a principal área de contacto com superfícies públicas que poderão estar infetadas. Desta forma, é muito importante higienizar as patas do cão no regresso do passeio.

As patas poderão ser higienizadas lavando-as com sabão neutro e água, tende especial atenção às almofadas e áreas entre os dedos. Apesar de poder não matar o vírus, o sabão permite removê-lo das patas.

Outras alternativas incluem o uso de soluções desinfetantes, também usadas na desinfeção das mãos. Por exemplo, solução que mistura 80 ml de álcool a 96%, 5 ml de água destilada, 15 ml de água e uma gota de glicerol ou outro lubrificante para evitar o ressecamento. Nunca se deverá utilizar soluções irritantes na lavagem das patas, como a lixívia, pois podem causar lesões na pele.

Cuidados a ter com alimentos

Quando consumir produtos de origem animal, estes devem ser pasteurizados ou confeccionados permitindo reduzir o risco de transmissão de doenças.

O mesmo é recomendado para animais de companhia, onde se deverá evitar o consumo de presas ou carne crua. O contacto com animais silvestres e animais de companhia deve ser evitado. Ainda deverá evitar partilhar o seu alimento com animais de companhia.

Cuidados a ter com deslocações

Evite fazer viagens internacionais para zonas afetadas. Atualmente, a China embargou as suas exportações de animais exóticos e silvestres numa tentativa de conter a potencial disseminação.

A segurança fronteiriça dos países foi reforçada, incluindo maior cuidado com pessoas, animais e géneros alimentícios oriundos de países afetados. A proteção pessoal de quem faz os controlos bem como controlo de roedores em transportes internacionais deverá ser reforçada.

Cuidados a ter nas visitas à clínica veterinária

Deverá ser consultado pelo seu médico veterinário apenas em situações urgentes, sendo recomendado que faça a marcação prévia. Atualmente a maioria dos estabelecimentos veterinários trabalham à porta fechada e apenas atendem por marcação, de forma a reduzir o contato entre donos e animais.

Na sala de espera e nas interações sociais na clínica, mantenha a distância de segurança e evite cumprimentos que envolvam contato, como apertos de mãos e beijos. É provável que lhe peçam que fique fora do consultório durante consulta de forma a reduzir o contacto entre pessoas.

Recomenda-se sempre a marcação da consulta por telefone ou digital. É de realçar que alguns estabelecimentos poderão encontrar-se encerrados. Ainda, a Ordem dos Médicos Veterinários encontra-se a coordenar o possível auxilio de médicos veterinários e de equipamentos (ex. ventiladores) ao SNS, podendo originar interrupções no serviço.

O que fazer em caso de suspeita

Em caso de suspeita ou de contacto prévio com pessoas infetadas nunca se deverá dirigir imediatamente aos serviços de saúde. Na saúde humana, deverá consultar o SNS24 (808 24 24 24) e na saúde animal, o seu médico veterinário por contacto telefónico. Caso o animal esteja doente, deverá seguir as instruções dadas pelo seu médico veterinário, incluindo boas medidas de higiene.

Caso se encontre doente ou esteja sob suspeita, use máscara para conter a transmissão e evite cuidar do seu animal de companhia, pedindo auxílio à sua família. Já existem locais e pessoas que se voluntariam para cuidar dos animais de pessoas infetadas. Mantenha a casa em boas condições de higiene e evite contactar com o animal. É de evitar contatos próximos como carícias, beijos e abraços, incluindo nos animais de companhia.

Fontes: DGAV 2020; WSAVA 2020; SNS 2020; Nature 2020; Nature 2020; Caddy 2020; AVMA 2020

Artigo anteriorOtohematoma canino
Joana C. Prata, Msc., tem um mestrado em Medicina Veterinária pela Universidade do Porto e é fundadora d’O Meu Animal. Sempre viveu rodeada de animais, tendo agora como companheiros dois gatos (a Rita e o Romeu), três cadelas (a Kami, a Inês e a Pota), uma tartaruga (o Nicholas) e uma colónia com cerca de dez gatos. Neste momento faz investigação na Universidade de Aveiro, como aluna de doutoramento e bolseira em Biologia e Ecologia das Alterações Globais, onde tenta identificar fatores ambientais que possam ter impacto na saúde humana, animal e dos ecossistemas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor introduza o seu comentário
Por favor introduza o seu nome aqui