Guia das tartarugas domésticas

0

🐢 Evolução e anatomia 🐢 Devo adotar uma tartaruga doméstica? 🐢 Tartarugas semi-aquáticas e aquáticas (de aquário) 🐢 Tartarugas terrestres (de terrário) 🐢 Saúde das tartarugas

As tartarugas são dos animais mais facilmente reconhecidos na face da terra. As suas carapaças coloridas e lentidão transformaram-na num réptil universalmente adorado.

Existem mais de 220 espécies de tartarugas, o que compensam sendo resistentes e adaptáveis, sendo encontradas desde os oceanos aos desertos. Os seus tamanhos variam desde os 12 cm aos possantes 1.80 metros (e 400 kg!) das tartarugas dos Galápagos.

Pode se estar a perguntar “Que tipo de animal é a tartaruga?”. Apesar das suas características únicas, as tartarugas são répteis. Tal como os restantes répteis, as tartarugas têm peles secas com escamas, dependem de calor externo para o seu metabolismo, e os ovos são postos na terra.

As tartarugas são répteis da ordem Chelonia que se dividem em Cryptodirans (metem a cabeça na carapaça dobrando-a verticalmente) e Pleurodirans (metem a cabeça na carapaça dobrando-a horizontalmente). Tartarugas é o termo usado genericamente para todos os membros da ordem, enquanto que cágado refere-se a tartarugas terrestres.

Como as tartarugas não produzem o seu próprio calor, são de “sangue-frio”, dependem de fontes externas de calor (exotérmicos). O calor é necessário ao metabolismo para que as enzimas estejam ativas. Por isso, regulam a sua temperatura expondo-se ao calor do sol ou refrescando-se na sombra.

Isto leva a que tartarugas de regiões temperadas e quentes possam atingir maiores dimensões, enquanto tartarugas de regiões frias são mais pequenas e precisam de hibernar nos meses frios em que não conseguem manter o metabolismo.

Tartarugas carapaça de couro são as maiores tartarugas marinhas. Podem ter corpos gigantes que retêm mais calor (produzido pela ação dos músculos) do que é perdido pela sua superfície corporal nos ambientes de água temperada que habitam.

Tartarugas-das-Galápagos são a maiores tartarugas terrestres, podendo chegar aos 400 kg e 1.8 m. A tartaruga mais antiga chama-se Harriet e já ultrapassou os 170 anos de idade. Atualmente encontram-se em perigo devido à caça para alimentação, especialmente de marnheiros.

Em Portugal existem duas espécies endémicas de tartarugas selvagens, o cágado-comum (Mauremys leprosa) e cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis). As populações destas tartarugas estão ameaçadas pela captura ilegal e competição com espécies exóticas que são libertadas no ambiente por cuidadores menos prudentes. Se encontrar uma destas espécies, deverá libertá-las ou seguir as recomendações após contacto com o ICNF, uma vez que é ilegal mantê-las em cativeiro.

Durante o século XX, as tartarugas tornaram-se animais de companhia comuns na América do Norte. A vantagem das tartarugas era o seu preço baixo e facilidade de cuidados. No entanto, este período gerou muitos mitos relativos aos cuidados necessários a ter com uma tartaruga. Ainda hoje a que muitas tartarugas domésticas perdem a vida antes de chegar à idade adulta devido à falta de cuidados apropriados. Logo é importante que o cuidado saiba tudo sobre tartarugas domésticas.

🐢

Evolução e anatomia das tartaruga

A tartarugas são descendentes de répteis e partilham um antecessor comum com os crocodilos. A carapaça formou-se através da adaptação das vértebras e costelas como forma de proteção contra os predadores.

O fóssil da tartaruga mais antiga coloca-a há 225 milhões de anos. Durante o período Jurássico, o período dos dinossauros, as tartarugas diversificaram-se. Neste período viveu a tartaruga marinha gigante Archelon que atingia os 3.60 m!

Carapaça

A carapaça é o resultado da fusão dos ossos da caixa torácica (vertebras, costelas e esterno), o que levou à adaptação das articulações dos membros e do aparelho respiratório.

Olhos

As tartarugas têm excelente visão para movimento e à distância. Usam-nos para encontrar comida e avistar predadores. Pensa-se que consigam ver vermelhos e amarelos. Nas tartarugas marinhas, a glândula lacrimal é responsável por excretar sal nas lagrimas.

Crânio

O crânio das tartarugas é pesado e sólido, não contendo os tradicionais “buracos” característicos dos repteis. As tartarugas não têm dentes, mas têm um bico afiado. Desfazem a comida em pedaços usando o bico e as patas. Tartarugas carnívoras têm bicos mais afiados, enquanto que tartarugas herbívoras podem ter serrações no bico para cortar plantas.

Língua

A maioria das línguas são duras e imóveis, não sendo utilizadas para engolir. Por isso só conseguem engolir na água empurrando com a água. As tartarugas usam as suas línguas duras para transferirem odores ao órgão de Jacobson no tecto da boca (órgão olfactivo). Submersas, fazem passar água pelas narinas e expelem pela boca permitindo a passagem pelo órgão.

Pulmões

Como não é possível expandir o tórax, existem músculos especiais para bombear o ar. Adicionalmente, algumas tartarugas expandem a garganta para puxar o ar. Quando pegamos nas tartarugas o “bufar” na realidade é o ar a sair rapidamente dos pulmões devido à rápido recolhimento da cabeça. Adicionalmente, algumas tartarugas conseguem absorver oxigénio pela superfície da garganta e cloaca, utilizando-se durante a hibernação.

Coração

O coração das tartarugas, como o dos restantes repteis, tem três câmaras. No ventrículo único, o sangue oxigenado mistura-se com o não oxigenado. Logo as tartarugas cansam-se rapidamente.

Carapaça e plastrão

A carapaça é a parte superior e o plastrão a parte inferior. Ambas estão cobertas por placas queratinizadas vivas e sensíveis, as escamas. A carapaça está ligada ao esqueleto da tartaruga, sendo que esta nunca poderá ser removida da carapaça.

As carapaças são muito fortes, mas poderão partir durante uma queda ou impacto forte. As carapaças dos cágados são altas para acomodar um maior sistema digestivo adaptado à baixa nutrição de uma dieta herbívora, enquanto que as tartarugas semi-aquáticas e aquáticas com dietas mais carnívoras têm carapaças mais achatadas.

Cor da pele

O verde nas tartarugas aquáticas resulta de dois pigmentos na pele: amarelo e azul. A variação na quantidade de cada pigmento produz o espectro de cor das tartarugas.

Membros

Como as articulações se encontram dentro da carapaça, a mobilidade das tartarugas é limitada originando a conotação à sua lentidão. No entanto, as tartarugas têm membros fortes e são capazes de correr rápido em curtas distâncias e até trepar.

Cloaca

É a única abertura na cauda da tartaruga que corresponde a final do sistema digestivo, urinário e reprodutivo.

Reprodução

A tartaruga macho introduz o esperma na cloaca da fêmea usando o seu pénis. A tartaruga fêmea pode armazenar esperma por 3 anos para produzir ovos viáveis. O período de gestação dos ovos varia normalmente entre 3 a 4 meses. As tartarugas fêmeas não cuidam dos ovos nem dos juvenis, mas têm atenção a fazer o ninho em sítios seguros.

🐢

Devo adotar uma tartaruga doméstica?

Existem várias questões a ser abordadas antes de decidir adotar uma tartaruga doméstica. Deverá avaliar o espaço e disponibilidade da sua família.

A maioria das tartarugas vão necessitar de recintos com tanques ou aquários até 200 L quando adultas. Tem espaço em casa para criar o habitat ideal para a tartaruga? Poderá fazê-lo durante os 30 anos de vida da tartaruga?

A pior decisão é a compra impulsiva de tartarugas que resulta no seu abandono. Quando abandonadas na natureza, competem e põem em risco as espécies de tartarugas portuguesas. A alternativa é a doação a lagos de adoção de tartarugas. O ideal é mesmo precaver esta situação.

As tartarugas são animais de fácil manutenção mas requerem cuidados. Inicialmente é necessário fazer um investimento no aquário para tartaruga e equipamentos. O comum aquário de plástico em forma de rim e com uma palmeira é uma sentença de morte e não deverá ser utilizado.

A alimentação é relativamente barata quando comparada com as quantidades consumidas. No entanto, consultas veterinárias para animais exóticos, como tartarugas, têm valores acima da média devido à especialização do profissional. Deverá garantir que tem disponibilidade para pagar se necessário.

Ainda é necessário tempo para dedicar à tartaruga. É preciso fazer manutenção pelo menos semanal do aquário e repor equipamentos quando se estragam. A tartaruga também não é um animal que goste de muita manipulação, e por isso poderá não ser indicado para crianças mais pequenas.

A escolha da espécie também deverá ser ponderada. Deverá ser terreste, necessitando de um terrário, ou aquática, necessitando de um aquário? Ainda deverá considerar o tamanho máximo a atingir pela espécie para programar o alojamento futuro da tartaruga. Por exemplo, a tartaruga de orelha vermelha atinge grandes dimensões. Uma tartaruga que não cresce tanto pode ser mais indicada, como a corcunda do Mississípi.

Como cuidar de uma tartaruga doméstica?

A maior preocupação dos cuidadores inexperientes é como tratar da uma tartaruga doméstica. As tartarugas domésticas são animais relativamente simples de cuidar. Os principais cuidados deverão ser em proporcionar um ambiente e uma alimentação ótima que permita a tartaruga viver em plena saúde. E tal como os restantes animais domésticos, deverá fazer consultas regulares no médico veterinário de exóticos. Como ter uma tartaruga de estimação será descrito em mais detalhe.

Onde comprar uma tartaruga doméstica?

Poderá comprar tartarugas domésticas em lojas de animais ou em criadores. Também poderá optar por adotar uma tartaruga adulta à procura de nova casa. Deverá ter atenção às espécies que são permitidas ser comercializadas em Portugal nesse momento. Espécies autóctones selvagens nunca poderão ser mantidas em casa como animais de estimação.

Como montar um aquário para tartaruga?

O aquário ou tanque para tartaruga deverá ser montado de acordo com a espécie. Para tartarugas domésticas aquáticas ou semi-aquáticas, é necessário um aquário com água, filtro da água, termostato, lâmpada de aquecimento, lâmpada de UVB, termómetro e uma plataforma seca. Para tartarugas domésticas terrestres, o terrário necessita da jaula, substrato, esconderijos, pratos de comida e água, lâmpada de aquecimento, lâmpada de UVB e termómetro. A descrição dos habitats da tartarugas está descrito mais à frente.

Como alimentar uma tartaruga aquática e terrestre?

A maioria dos cuidadores de tartarugas domésticas pergunta-se “O que comem as tartarugas?”. Na verdade, não existe uma única a comida para tartaruga domésticas aquáticas ou terrestres. Deverá ser fornecida uma dieta variada, normalmente composta por vegetais, frutas, ração e alguma proteína animal. Assim, os alimentos para tartaruga são variados pois estes são geralmente animais omnívoros. A dieta das tartarugas domésticas será discutida em detalhe mais à frente.

Quantos anos vive uma tartaruga doméstica?

O tempo de vida de uma tartaruga depende da espécie e dos cuidados que recebe. Com cuidados ótimos, as tartarugas aquáticas e semi-aquáticas poderão viver entre 30 a 40 anos. Já as tartarugas terrestres poderão chegar aos 100 anos. Convém planear com cuidar da tartaruga durante estas décadas antes da adoção. E como saber a idade de uma tartaruga? A estimativa da idade faz-se pelas linhas de crescimento na carapaça da tartaruga.

As tartarugas são inteligentes?

O cérebro da tartaruga é semelhante ao das aves, mas tem hemisférios cerebrais mais pequenos. Logo não são extremamente brilhantes quando comparadas com outros animais. No entanto, as tartarugas revelam ter funções cognitivas superiores ao esperado. Em laboratório, usando recompensas, tartarugas conseguiram terminar um labirinto quase tão rápido como ratos!

As tartarugas aprendem?

Muita tartarugas conseguem distinguir o seu dono de estranhos, saber a hora a que são alimentadas e algumas especialmente inteligentes respondem ao seu nome. As tartarugas aquáticas não são muito dadas ao contacto físico com os donos. No entanto podem ser treinadas para tolerar serem pegadas ou receberem comida à mão.

🐢

Tartarugas semi-aquáticas e aquáticas (de aquário)

As tartarugas semi-aquáticas e aquáticas são animais de companhia populares que têm necessidades especificas e vivem até 40 anos. São tartarugas normalmente mantidas em aquários, mas que requerem cuidados para se manterem saudáveis.

  • Tartarugas semi-aquáticas: vivem na terra e na água, inclui tartaruga de orelha vermelha (Trachemys spp.), tartaruga pintada (Chrysemys spp.) e tartarugas mapa (Graptemys spp.).
  • Tartarugas aquáticas: vivem quase exclusivamente na água, inclui a tartaruga-americana-de-casco mole (Apalone ferox) e Mata-mata (Chelus fimbriata).

Dieta e nutrição das tartartugas semi-aquáticas e aquáticas

As tartarugas habitam vários habitats e a sua preferência alimentar varia. Tartarugas semi-aquáticas e aquáticas são omnívoras, alimentam-se de proteína animal e vegetais. Em geral, as tartarugas alimentam-se de proteína animal em juvenis para ajudar ao seu crescimento e têm dietas mais herbívoras em adulto. As tartarugas aquáticas são mais carnívoras, como por exemplo, as snappers.

A alimentação das tartarugas aquáticas e semi-aquáticas deve ser feita na água. As tartarugas não conseguem utilizar a sua língua rígida para engolir os alimentos. Então, engolem o alimento engolindo água. Em alimentos grandes, as tartarugas seguram-nos com o bico e com as patas, partindo-os em pequenos pedaços que podem ser engolidos.

Os restos da alimentação e fezes podem originar degradação da qualidade da água no aquário. Por este motivo, muitos cuidadores preferem fazer a alimentação num recipiente separado com água, com profundidade suficiente para submergir, que pode ser lavado após cada refeição permitindo eliminar restos e fezes. Em alternativa, os restos de alimentos devem ser removidos da água.

Uma tartaruga semi-aquática ou aquática adulta deverá alimentar-se principalmente de:

  • Vegetais (≥ 50%): couve, agrião, endívias, bok choy, plantas aquáticas (lemna), dente-de-leão, rama da beterraba, cenoura, brócolo;
  • Ração comercial (≤ 25%): ração para tartaruga (ex. Tetra, Reptimin);
  • Proteína animal (≤ 25%): peixe, caracóis, insetos, pequenas rãs, ratos;
  • Suplementos: cálcio duas a três vezes por semana.

Vegetais

Os vegetais são utilizados para simular a dieta natural das tartarugas semi-aquáticas e aquáticas. Em catividade usam-se vegetais comuns, como o agrião. Em alternativa, poderão ser colocadas plantas de aquário adequadas que vão sendo ingeridas ao longo do tempo. Algumas espécies poderão ainda alimentar-se raramente de frutas.

Ração comercial

A ração para tartarugas de alta qualidade poderá ser adequada e nutricionalmente completa, mas é recomendado não ser o único elemento da dieta. A vantagem deste alimento é a facilidade de administração e deixar poucos resíduos no aquário. O tamanho e forma dos pellets devem adequar-se ao tamanho da tartaruga.

Existem algumas rações de fraca qualidade que têm baixo valor nutricional, traduzindo-se em problemas de saúde. Uma dieta de fraca qualidade traduz-se rapidamente em degradação da carapaça. A ração de gato e cão não é aconselhada uma vez que é rica em vitamina A e D o que pode originar calcificação de tecidos moles. O ideal é fornecer uma dieta variada e balanceada adequada à sua tartaruga.

Proteína animal

Provavelmente o melhor alimento para tartarugas aquáticas são peixes e minhocas. Os peixes poderão ser congelados para reduzir o risco de conterem parasitas e bactérias patogénicas. No entanto deverão estar descongelados antes de ser fornecer. Não se recomenda a administração de minhocas e peixes selvagens, pois podem conter doenças e parasitas.

Guloseimas

Os camarões secos devem ser usados ocasionalmente como guloseima. Uma dieta à base de camarões, apesar de muitas vezes ser recomendada por lojistas, não é uma dieta equilibrada. Ocasionalmente poderá fornecer caracóis, carne ou peixe (coração, fígado), vegetais (folha de dente-de-leão, couve galega), e fruta (maça, pêssego, manga).

Suplementos

As tartarugas têm grandes necessidades de minerais e vitaminas para se manterem saudáveis, podendo necessitar de suplementação. Os juvenis são especialmente sensíveis a deficiências de vitaminas e minerais, sendo os mais importantes a vitamina D3 e o cálcio. A suplementação com cálcio poderá originar-se na alimentação de presas ricas em cálcio, como o peixe inteiro, uso de pó de cálcio sobre os alimentos, uso de osso de choco que pode ser ingerido, ou colocando uma pedra de cálcio que é ingerida com a água.

Como alimentar uma tartaruga semi-aquática e aquática?

Em geral, todas as tartarugas juvenis deverão ser alimentadas 1 vez por dia, enquanto adultos deverão ser alimentados cerca de 2 a 3 vezes por semana. É preferível alimentar as tartarugas ao amanhecer ou entardecer, com quantidades pequenas de alimento para evitar que se estrague, ou removendo os restos. Dietas ricas em proteína poderão necessitar de menos alimento.

Há duas formas de controlar o alimento ingerido pela tartaruga. Uma é fornecer alimento num período curto até que não coma mais. A segunda é fornecer uma quantidade de alimento semelhante ao volume da cabeça da tartaruga.

As tartarugas são animais vorazes e podem facilmente tornar-se obesas. Devido à carapaça, a obesidade acumula-se e pressiona os órgãos internos, tendo consequências para a saúde. No exterior, a gordura observa-se principalmente nos espaços entre as patas.

As tartarugas conseguem ficar longos períodos em jejum (2 a 3 semanas). No final deste período, deverão alimentar-se bem. Nos meses frios, as tartarugas ficam inativas e reduzem a ingestão, podendo até hibernar. A hibernação não é um problema se a tartaruga tiver comido bem nos meses anteriores. Em tartarugas muito pequenas, a hibernação não é recomendada pois ainda não têm reservas suficientes.

A tartaruga poderá reduzir a alimentação em certas situações. Se a temperatura da água estiver muito baixa (<20ºC), o metabolismo irá reduzir-se a consequentemente a ingestão. Aquecendo progressivamente a água irá permitir à tartaruga recuperar o apetite.

Situações de stress, como alteração do aquário ou mudanças, podem também reduzir o apetite. Quando são trazidas inicialmente para casa, as tartarugas tendem a ficar alguns dias sem comer até se habituarem à nova casa e ganharem confiança. Deve evitar-se piorar o stress (ex. evitando manipulações) e fornecer diariamente alimentos muito palatáveis (guloseimas) para iniciar a ingestão do alimento.

Ainda existem tartarugas que se viciam em alimentar-se exclusivamente de guloseimas, como camarões. Estes casos requerem insistência com dietas saudáveis. Idealmente, vegetais devem ser introduzidos o mais cedo possível na dieta. Deve-se também intercalar entre alimentos que flutuem e alimentos que afundem para que aprenda a comer de todos os tipos.

Habitat da tartaruga semi-aquática ou aquática

O habitat de tartarugas semi-aquáticas e aquáticas deve conter uma grande área de água morna e uma zona seca. As tartarugas irão passar a maior parte do tempo na água e sair para a zona seca para os seus banhos de sol. Na verdade, a tartaruga aquática pode ficar fora de água durante muito tempo. Em alguns tratamentos veterinários, as tartarugas aquáticas poderão ficar até 23 horas fora de água diariamente.

Criar um espaço no exterior com um lago bem cercado e protegido de predadores será melhora simular o ambiente natural. As tartarugas adultas poderão nadar, sair da água para apanhar sol diretamente e esconder-se na sombra. A água deve ser circulada utilizando uma bomba para manter os níveis de oxigénio e favorecer bactérias que removem resíduos. A cerca deverá ser à prova de tartaruga, pois estas conseguem trepar e encontrar métodos de fuga improváveis.

Os espaços exterior são especialmente importantes para tartarugas grandes que necessitam de espaço. No exterior, as tartarugas estarão sujeitas às condições ambientais, incluindo variações de temperatura. Em temperaturas frias poderão até hibernar. Tartarugas jovens nascidas em meses frios não deverão ser mantidas diretamente no exterior pois poderão hibernar não tendo reservas energéticas para o fazer.

Criar um aquário interior poderá fornecer uma interação mais frequente com a tartaruga. No entanto, requer mais preparação para satisfazer as necessidades da tartaruga e a manter saudável.

Escolha do aquário

O aquário poderá ser um aquário de vidro, uma caixa de plástico resistente ou um tanque. O ideal é o aquário de vidro que é mais fácil de limpar. Já aquários de plástico poderão agarrar sujidade na sua superfície, mas são mais económicos.

O tamanho do aquário irá depender do tamanho da tartaruga e do número de tartarugas. É necessário ter em atenção que algumas tartarugas são territoriais e por isso deverão ser mantidas individualmente. O tamanho do aquário permite fazer exercício, manter a temperatura e qualidade da água.

O aquário deverá um comprimento de 4 a 5 comprimentos de carapaça, que permite nadar e exercitar-se, e uma profundidade de pelo menos 2 carapaças, permitindo virar-se se ficar ao contrário. Quando se mantem várias tartarugas, deve-se ter pelo menos 5 vezes a área de cada tartaruga.

Outra forma de medição das necessidades é considerar que a área da carapaça não deve ocupar mais de 25% da área de fundo do aquário. Desta forma, o ideal é comprar um aquário grande que possa acomodar a tartaruga durante muitos anos. Para tartarugas de orelha-vermelha adultas poderá ser necessário um aquário de 200 L.

Ter um grande volume de água também é importante para manter a qualidade da água e evitar a acumulação rápida de produtos de excreção tóxicos. Também é importante considerar a facilidade com que é limpo. O aquário não deverá estar diretamente ao sol nem de outras fontes de calor pois poderá sobreaquecer.

Aquecimento com termostato

A água do aquário deve ser aquecida utilizando um termostato. A temperatura ideal vai depender da espécie, sendo normalmente entre 22 e 27ºC. Deve evitar-se sujeitar a tartaruga a mudanças rápidas de temperatura, que poderão ser fatais.

Certos termostatos poderão causar queimaduras ou partir-se, sendo necessário ter cuidado com estes riscos. O termostato deve estar completamente dentro de água e desligado antes da mudança de água, senão poderá partir-se.

Controlo com termómetro

O termómetro permite monitorizar a temperatura da água e da zona seca. A manutenção da temperatura é importante nas tartarugas pois a sua temperatura corporal depende da temperatura ambiental. Assim, baixas temperaturas reduzem o metabolismo, a atividade e apetite das tartarugas.

Em aquários grandes, poderá ser necessário mais do que um termómetro para avaliar o gradiente de temperatura da água. Termómetros de vidro poderão partir se não forem corretamente fixados.

Lâmpada de aquecimento

A lâmpada de aquecimento irá aquecer a zona seca. A potência depende do tamanho do aquário, podendo usar-se lâmpadas incandescentes (50 a 150 W), lâmpadas de infravermelhos (250 W), ou lâmpadas de porcelana. É importante utilizar um suporte com casquilho cerâmico que suporte calor.

A lâmpada com uma temperatura de 29 a 35ºC deve ficar sobre a área seca. A distância da lâmpada à zona seca deverá ser de pelo menos 20 cm. A temperatura na zona seca deverá ficar a 24 a 25ºC. A utilização de lâmpada de aquecimento também permite evitar quedas na temperatura da água.

Lâmpada de ultravioletas

A lâmpada de ultravioletas é ainda mais importante que a lâmpada de aquecimento. As tartarugas necessitam de radiação ultravioleta (UV) para produzir vitamina D, essencial à absorção de cálcio. No exterior, a luz UV é emitida pelo sol e absorvida pelas tartarugas nos seus banhos de sol. No interior, as tartarugas sobem à zona seca e expõem-se à luz UV emitida pela lâmpada.

A radiação UV não atravessa vidro nem plástico transparente, pelo que é importante a exposição direta. Assim, colocar o aquário à janela não é suficiente para a absorção de luz UV. O ideal é a utilização da lâmpada UV (UV-B 5%) sobre a área seca, a 18 a 24 cm. A lâmpada deve estar ligada 8 a 12 horas por dia.

A lâmpada de UV necessita de ser substituída a cada 6 meses pois deixa de emitir radiação UV (invisível) enquanto mantêm a emissão de luz visível (luz branca). Falta de luz UV ou cálcio na dieta originam problemas metabólicos severos que se traduzem como malformações na carapaça.

Zona seca para os banhos de sol

As tartarugas semi-aquáticas e aquáticas necessitam de uma zona seca onde possam secar a carapaça e expor-se à radiação UV. O ideal é criar uma zona seca com área suficiente para todas as tartarugas saírem completamente da água.

As tartarugas poderão estar na zona seca entre 3 a 8 horas por dia. Se a tartaruga não estiver confortável com a zona seca, não secará a carapaça e poderá desenvolver fungos na carapaça (pontos brancos). A zona seca não deve ter pontas aguçadas que possam magoar as tartarugas e deverá ter um gradiente de inclinação para facilitar a saída da água.

Filtro da água e qualidade da água

A qualidade da água é muito importante para as tartarugas aquáticas e semi-aquáticas que passam a maior parte da sua vida na água, sendo também onde ingerem alimento e excretam as suas fezes. Desta forma, é necessário manter a qualidade da água para garantir a saúde da tartaruga.

Sem utilização de um filtro, a muda da água do aquário deverá ser diária. A utilização do filtro de água permite reduzir as mudas mantendo a qualidade da água. Não existem filtros para aquário de tartaruga especificamente. Escolhe-se um filtro de aquário comum, mas com um maior volume de filtração. O filtro de aquários deverão ter capacidade para filtrar 4 vezes o volume de água do aquário porque as tartarugas produzem resíduos abundantes.

Substrato de fundo

O substrato é opcional nas tartarugas semi-aquáticas e recomendado nas tartarugas aquáticas, onde se podem formar úlceras de pressão nas patas na ausência de substrato. O substrato, idealmente constituído por pedras grandes o suficiente para não serem ingeridas, é um bom método de enriquecimento ambiental.

O substrato também torna o aquário mais interessante visualmente. No entanto, a limpeza do aquário torna-se mais difícil, por isso muitos cuidadores preferem não utilizar substrato. A utilização de substrato de pequenas dimensões, como areia, poderá levar a impactação do sistema digestivo da tartaruga se ingerido.

Evitar as fugas com a rede de topo

Apesar da fama das tartarugas como lentas e trapalhonas, elas são mestres da fuga. Assim, todo o aquário deverá ser concebido de forma a que não consigam escapar. Fugas poderão originar quedas e outras lesões. É importante considerar a distância da zona seca à margem do aquário, que poderá ser usada na fuga.

Para espécies trepadoras, ou certos aquários, a fuga das tartarugas é prevenida colocando-se uma rede de topo sobre o aquário. A rede deve ficar distanciada da água. Esta rede também impede a entrada de outros animais, como cães e gatos que podem perturbar a tartaruga.

Como limpar o aquário de tartaruga?

É fundamental garantir uma boa qualidade da água. Apesar de parecer limpa, a água do aquário pode acumular resíduos invisíveis, como nitrogénio das fezes e urina. Acumulação excessiva pode causar problemas de saúde. A frequência da mudança da água irá depender do tamanho do aquário, uso de filtro da água, número de animais, entre outros. O uso de plantas aquáticas ou bactérias desnitrificantes pode auxiliar na manutenção da qualidade da água.

As mudanças de água permitem reduzir o nível de produtos de excreção tóxicos nas água. Em aquários pequenos poderá ser necessário fazer mudas da água pelo menos 2 a 3 vezes por semana. O filtro também deverá ser limpo com a mesma regularidade, lavando-se ou trocando-se os filtros internos. E aquários grandes podem ser feitas semanalmente, ou até em intervalos maiores. Quanto mais tartarugas partilharem o aquário, mais regular devem ser as mudas.

A água não deve ser mudada na totalidade de forma a preservar as bactérias benéficas que ajudam à desnitrificação. Desta forma, em aquários grandes é recomendada a troca de ½ a ⅔ da água do aquário. A presença de plantas que desnitrificam a água poderá ajudar a manter a água em níveis aceitáveis durante mais tempo. A água da torneira, apesar de conter cloro, poderá ser utilizada, pois este irá evaporar-se.

A muda de água pode ser auxiliada por um sifão, colocando um balde numa posição mais baixa do que o aquário. Em alternativa, usa-se uma bomba de água submersível que permite bombear grandes volumes de água com pouco esforço.

As paredes do aquário devem ser limpas com um pano ou papel embebido em vinagre. O aquário só deverá ser lavado com sabão e lixívia para completa desinfecção, seguida de lavagem com água abundante. Resíduos de sabão e irritantes, como a lixivia, poderão ser muito prejudiciais à saúde das tartarugas e por isso não são recomendados.

🐢

Tartarugas terrestres (de terrário)

As tartarugas terrestres mais comuns são as tartarugas de caixa (Terrapene spp.), existindo várias subespécies. As tartarugas de caixa americanas passam a maioria do tempo a cavar na lama e esconder-se por baixo das pedras, já as chinesas e malásias precisam de mais água (até 50% da jaula). As tartarugas de caixa adultas têm dimensões de 11 a 20 cm de comprimento e vivem até 40 anos em cativeiro.

Dieta e nutrição de tartarugas terrestres (tartaruga de caixa)

As tartarugas terrestres, como as tartarugas de caixa, são omnívoras ingerindo principalmente vegetais, mas também frutas e alimentos ricos em proteína. Algumas espécies terrestres poderão ser herbívoras, gostando de pastar. Na natureza ingerem flores frescas (vermelhas, laranjas, amarelas ou verdes), plantas suculentas, cactos, alfafa, dente-de-leão, frutos e alguns vegetais. Antes da hibernação poderá ser fornecido figos visto que são ricos em carboidratos.

Tal como as tartarugas aquáticas e semi-aquáticas, as tartarugas terrestres jovens têm uma dieta mais carnívora devido à necessidade de proteína tornando-se omnívoras em adultas. O apetite das tartarugas terrestres é altamente estimulada pela cor e odor, pelo que uma dieta colorida e variada é preferida. Quando se inclui na dieta animais vivos, como minhocas ou grilos, deverá testar-se com regularidade a tartaruga para parasitas.

Assim, a dieta comum de uma tartaruga terrestre incluí:

  • Vegetais (60-70%): vegetais verdes, como dente-de-leão e repolho, misturados com outros vegetais cortados, como cenoura, abobora, feijão verde e brócolo;
  • Frutas: tomates, uvas, maçãs, melões, bagas poderão ser oferecidos diariamente;
  • Proteína animal: minhocas, larvas, insectos, caracóis, lesmas, grilos, ratos, peixes.
  • Suplementos: um suplemento vitamínico e mineral deve ser fornecido semanalmente aos adultos.

Habitat para tartarugas terrestres (tartarugas de caixa)

As tartarugas terrestres necessitam de um terrário apropriado para manter um bom estado de saúde. Em alternativa, poderão ser mantidas no exterior. No entanto, certos países poderão não ter climas adequados a estes animais originando o devolvimento progressivo e lento de doenças relacionadas com o maneio. O terrário deverá consistir num tanque ou jaula com temperatura adequada, humidade, iluminação e acessórios.

Terrário

Em tartarugas terrestres adultas, o terrário poderá consistir em aquários de 170 L, jaulas de arame ou tanques abertos. As tartarugas de caixa necessitam de extensas áreas secas para tomarem banhos de sol e cavarem. As laterais do terrário deverão ser elevadas e sem cobertura no topo. Ainda se devem fornecer esconderijos, como caixas ou cortiça, onde poderão esconder-se e repousar.

Se o habitat for construído no exterior, a vedação deve ser enterrada e ladeada por pedras para impedir que a tartaruga cave e escape. Para grupos de tartarugas, o espaço deve ser aumentado e incluir-se barreiras visuais. Durante a época reprodutiva, os machos poderão tornar-se agressivos.

Idealmente os terrários deverão ser de pelo menos 1.2 m para adultos. Devem ser quentes numa das extremidades e frescos na outra, para permitir que a tartaruga regule a sua temperatura. O ventilação do terrário deverá ser adequada para evitar acumulação de humidade.

Substrato e decorações

Nas tartarugas terrestres, é importante fornecer um substrato que as permita cavar e enterrar-se. O substrato também ajuda a manter a humidade do terrário. No entanto, este substrato não deverá causar problemas se ingerido, como é o caso das aparas de madeira. É recomendado que o substrato tenha 5 a 8 cm de profundidade para permitir expressão dos comportamentos naturais.

Para além do substrato, poderá ainda incluir-se decorações. Nas tartarugas mais pequenas, uma cave poderá ser um refugio. Plantas artificiais poderão decorar e tornar o terrário mais natural. Plantas trepadeiras são excepcionais para esconder cabos eléctricos dos equipamentos usados.

Temperatura e radiação ultravioleta

A temperatura indicada irá variar dependendo da região original da espécie e estação do ano. A temperatura deverá ser mantida com uma lâmpada de aquecimento durante 10 a 12 horas por dia. Durante o dia, a temperatura poderá ser de 27 a 29ºC. À noite, a temperatura deverá baixar para 7 a 24ºC, desligando-se a lâmpada de aquecimento e iluminação. A lâmpada de aquecimento deve estar num dos lados do aquário, permitindo que a tartaruga regule a temperatura. A temperatura deve ser controlada diariamente usando um termómetro.

Uma lâmpada UVB é também necessária para garantir uma boa produção de vitamina D, sendo trocada a cada 6 meses. Nas tartarugas do deserto, deverá utilizar-se uma lâmpada UVB 10-12%. A ausência de luz UVB leva a deficiências de vitamina D, que causam problemas de absorção do cálcio e deformações permanentes da carapaça.

Humidade e água

As tartarugas de caixa requerem uma humidade relativa de 30 a 80%, apesar de existirem espécies de habitats áridos. Para espécies de locais humidos, cria-se uma névoa de água usando um aplicador de spray 1 a 2 vezes por dia.

As tartarugas de caixa não são boas nadadoras e por isso não precisam de um recipiente de água fundo. É preferível utilizar um prato plano ou taça baixa para servir a água, que permita a tartaruga banhar-se e sair facilmente. A água deve estar sempre fresca e limpa, necessitando de ser trocada diariamente para garantir a sua qualidade.

🐢

Saúde das tartarugas

As tartarugas, como animais de estimação, devem ser mantidas em bom estado de saúde. Desta forma, requerem cuidados e consultas regulares no médico veterinário. As principais doenças das tartarugas relacionam-se com más condições do habitat onde vivem e da sua alimentação, sendo importante garantir que estas são adequadas à espécie.

Os principais sinais de doenças podem ser identificados pelo cuidador como:

  • Redução da atividade (letargia), não relacionadas com alterações da temperatura da água;
  • Falta de apetite (anorexia), não relacionadas com alterações da temperatura da água;
  • Respiração de boca aberta (dispneia), indicando problemas respiratórios;
  • Pender para um lado ao nadar, indicando uma lesão que ocupa espaço como uma pneumonia ou abcesso;
  • Alterações dos olhos, pele, carapaça e plastrão, como olhos inchados, abcessos, manchas vermelhas, carapaça mole, descamação excessiva e manchas brancas.

Se a tartaruga não quer comer ou está letárgica, deverá confirmar-se se a temperatura da água ou do terrário. Como as tartarugas dependem da temperatura do ambiente, temperaturas baixas irão reduzir a sua atividade metabólica, reduzindo a fome e atividade.

Como pegar numa tartaruga?

A forma de contenção da tartaruga deve protegê-la de quedas e desconforto e proteger o manipulador de ser magoado. Algumas tartarugas poderão tentar morder com o bico ou arranhar com as patas. Também é necessário cuidado para não deixar cair a tartaruga das mãos ou mesas. Apesar de serem animais resistentes, quedas pequenas poderão originar fraturas na carapaça. As tartarugas semi-aquáticas e aquáticas são geralmente mais resistentes à manipulação do que as terrestres. A manipulação frequente das tartarugas também irá facilitar o exame clínico durante as consultas veterinárias.

Nas tartarugas terrestres deve segurar-se a carapaça entre os membros anteriores e posteriores com ambas as mãos. Nas tartarugas semi-aquáticas e aquáticas, segura-se à semelhança das tartarugas terrestres ou com uma mão sobre a traseira da carapaça. Ao puxar as patas traseiras normalmente resultas com a exposição também da cabeça e patas dianteiras. Algumas tartarugas podem sentir-se mais seguras estando o plastrão a tocar na palma da mão, no entanto esta posição permite que a tartaruga agitada arranhe com as suas garras a mão.

Consultas veterinárias para tartarugas domésticas

Tal como os restantes animais de companhia, a prevenção de doenças é recomendada através de consultas regulares. As consultas deverão ser marcada em médicos veterinários de exóticos, especialistas em tratar estes animais. A visita ao veterinário é recomendada logo após a adoção do animal, sendo que este deverá ser mantido separado dos restantes durante 1 ano.

O diagnóstico pode ser facilitado pela cooperação do cuidador. Assim, levar uma fotografia do habitat da tartaruga e descrever corretamente o maneio do habitat e alimentação é fundamental para o diagnóstico. Uma amostra de fezes com menos de 48 horas e refrigerada também poderá ajudar ao diagnóstico de parasitas.

O transporte poderá ser feito num caixa de transporte com água. Também poderá levar-se o termostato e alimentos favoritos em caso de hospitalização. É importante ter em conta que letargia e anorexia poderão ser causados por baixas temperatura e stress, pelo que poderão não ter uma origem patológica.

As consultas veterinárias de animais exóticos não são exatamente iguais às dos cães e gatos. Na consulta de tartarugas, grande parte do exame é feito por observação do animal ao longe. Auscultação raramente será realizada devido à carapaça. Já a temperatura do animal será dependente da temperatura ambiental. A boa avaliação no exame clínico também requer que o animal esteja aquecido à temperatura metabólica ideal (~25ºC).

Na consulta veterinária, o médico veterinário irá avaliar:

  • Alterações de cor e firmeza da carapaça, plastrão e pele;
  • Nódulos e abcessos na pele, especialmente na área da orelha;
  • Inchaço e limpeza dos olhos;
  • Presença de espuma ou descarga na boca;
  • Presença de odor, úlceras ou material caseificado no interior da boca;
  • Descargas nasais;
  • Inchaço das patas;
  • Prolapso da cloaca;
  • Material fecal;
  • Sexagem.

Sexagem de tartarugas domésticas

Determinar o sexo das tartarugas domésticas é um desafio enquanto jovens, sendo que em adultos desenvolvem diferenças físicas entre machos e fêmeas (dimorfismo sexual). Assim, no momento da adoção da tartaruga é muitas vezes impossível determinar o seu sexo.

Ao atingirem a maturidade sexual em adultos, as características que permitem a sexagem são mais visíveis. Ainda poderão ser consideradas características especificas de certas espécies, como a presença de colorações e glândulas. Nas tartarugas domésticas, as principais características que permitem a sexagem são:

  • O plastrão é ligeiramente côncavo nos machos, permitindo-se manter-se sobre a carapaça convexa da fêmea durante a cópula;
  • A cauda dos machos é comprida e grossa, com uma cloaca no exterior da cauda, permitindo a exposição do pénis e cópula; nas fêmeas a cauda é curta e a cloaca na sua base;
  • O tamanho das tartarugas fêmeas é geralmente superior ao dos machos da mesma espécie e idade;
  • As garras das patas dianteiras dos machos são geralmente mais compridas, pois são utilizadas em disputas pelo território e ritual de acasalamento.

Doenças comuns em tartarugas domésticas

A maioria das doenças em tartarugas domésticas relaciona-se com o maneio do habitat e nutrição da tartaruga. Desta forma, as doenças mais comuns devem ser acompanhadas de alterações no habitat e nutrição.

A doença metabólica óssea faz com que a carapaça se torne mole devido ao hiperparatiroidismo causado por falta de cálcio na dieta, falta de vitamina D por ausência de luz UV, ou excesso de fósforo na dieta. A doença óssea metabólica crónica pode originar deformações permanentes da carapaça. O tratamento passa por suplementação da dieta com cálcio, vitamina D3, e luz UV. A dieta e exposição a luz UV devem ser melhoradas como prevenção.

A deficiência em vitamina A é uma causa comum do inchaço dos olhos das tartarugas, relacionada com uma má nutrição. A administração com ração comercial tem vindo a prevenir este problema. O tratamento passa pela suplementação com vitamina A. Outras causa de inchaço dos olhos são infeções bacterianas ou virais, ou excesso de luz UV. Na tartarugas terrestres, é frequente a hipervitaminose A traduzindo-se em dermatose com pele seca devido à sobre-suplementação vitamínica.

Má nutrição, relacionada com a doença óssea metabólica e deficiência em vitaminas, está relacionada com defeitos na carapaça. Nas tartarugas aquáticas, revela-se como o enrolar da zona cranial e caudal da carapaça. Nas tartarugas terrestres, ocorre piramidismo, sendo que a carapaça cresce em pequenas piramides.

As doenças infecciosas são comuns nas tartarugas aquáticas. Má nutrição e falta de permanência na zona seca pode originar infeções por fungos caracterizadas por pontos brancos e moles na carapaça. Em casos extremos, estas infeções da carapaça aprofundam-se afetando o osso e espalhando-se (septicemia), provocando úlceras e áreas avermelhadas. O tratamento de infeções superficiais poderá passar pela lavagem diária da carapaça e plastrão com um sabão neutro e desinfeção com betadine diluída, permitindo a secagem da carapaça por várias horas sob a luz UV.

As infeções respiratórias caracterizam-se por descargas nasais, boca aberta na respiração forçada, pender para um lado ao nadar e pneumonia. As otites caracterizam-se por inchaços dos tímpanos nas laterais da cabeça. O sistema digestivo também poderá ser afetado por parasitas originando diarreia e sangue nas fezes. O tratamento irá depender da causa, sendo normalmente utilizados antibióticos, antiparasitários, e antifúngicos. Na pele, as infeções ainda poderão aparecer como abcessos no caso das infeções traumáticas e por punção.

Descamação anormal (disecdise) nas tartarugas aquáticas originar exposição a infeções, sinalizar outras doenças ou uma deficiência nutricional. Outros motivos para uma descamação anormal, em fragmentos e com elevada frequência, pode também ser causada por excesso de alimentação com crescimento rápido, temperatura baixa, elevados níveis de amónia na água e uma zona seca muito quente. A correção passa por resolver os problemas no ambiente da tartaruga e limpar ou desbridar a carapaça e plastrão. Convém sublinhar que a descamação é normal nas tartarugas como forma de renovação da pele, no entanto a descamação de pedaços de escamas e elevada frequência pode indicar um problema.

Doenças reprodutivas são relativamente comuns podendo ocorrer falha da ovulação ou de ovoposição, ficando os ovos retidos no interior da tartaruga. Com a detecção precoce é possível o tratamento médico ou cirurgico. Também poderá haver o prolapso de órgãos pela cloaca, como o pénis ou oviducto.

Sobrecrescimento do bico e garras é comum em tartarugas captivas. Normalmente está relacionado com uma dieta mole, que não permite o desgaste do bico, e de um ambiente que não permite o desgaste das garras. Poderá ser necessário o corte periódico. O sobrecrescimento do bico também poderá estar relacionado com a doença óssea metabólica.

A ingestão de corpos estranhos é também comum nas tartarugas devido à sua curiosidade que as leva a ingerir materiais pequenos o suficiente para passarem na sua boca. Dependendo do tamanho da tartaruga, isto incluí areia, pedras, e até moedas. Os corpos estranhos podem passar pelo sistema digestivo sem problema, mas se causarem uma obstrução poderá ser necessário a sua remoção por cirurgia.

O trauma nas tartarugas também é um problema. Apesar de terem carapaças resistentes, estas podem partir-se no causa de traumas, como quedas, atropelamentos, e agressão por outros animais. O seguimento por um médico veterinário permite reparar a carapaça e plastrão, bem como contrariar problemas sérios, como a perda de sangue, bradicardia e dor severa.

Doenças zoonóticas transmitidas pelas tartarugas

As tartarugas, tal como os restantes répteis, poderão ser portadores assintomáticos de Salmonella. Logo, as tartarugas domésticas podem transmitir doenças se houver falta de higiene por parte dos cuidadores. É necessário lavar sempre muito bem as mãos e objetos que estejam em contacto com a tartaruga. Não é recomendado fazer a limpeza do aquário na banca da cozinha. As crianças são especialmente susceptíveis a colocar a tartaruga ou mãos na boca, devendo ser sempre supervisionadas.

Preparar a hibernação

A oportunidade de hibernação da tartaruga irá depender das condições ambientais, como a redução da temperatura. Hibernação é recomendada para manter os níveis de atividade da tiroide e sincronizar a reprodução. Apenas tartarugas saudáveis adultas que se alimentaram bem devem hibernar. É recomendado visitar o veterinário antes da hibernação para garantir que a tartaruga está saudável.

O alimento deve ser removido 1 semana antes da hibernação e deve ser fornecida água limpa, para “limpar” o sistema digestivo. A tartaruga torná-se-á mais lenta e deixará de comer com o arrefecimento. A hibernação deverá ser realizada num local com pouca variação de temperatura.

Idealmente, poderá utilizar uma divisão fria, escura e seca, como uma garagem. Para as tartarugas terrestres, onde as temperaturas deverão ser mantidas entre 10 a 16ºC, poderá preparar-se uma casota com folhas de papel rasgadas no exterior. Alguns cuidadores mantêm as tartarugas em locais intencionalmente refrigerados.

Preparação para emergências com tartarugas

Em tempos incertos, é recomendado ter um kit de emergência para as tartarugas. Este deverá incluir uma semana de alimento para cada animal, uma semana de água para cada animal, 2 semanas de medicação, boletins sanitários, kits de emergência, e fotografias de cada animal.

O alimento deverá ser suficiente para pelo menos uma semana e ser seco ou enlatado, de forma a preservar-se. O alimento deverá ser separado da água. O stock de água permite acesso a água de boa qualidade, uma vez que fontes de água poderão ser contaminadas durante um desastre.

Deverá ainda ter-se fotografias do animal para identificação, em caso de se perderem ou terem que ser identificados por grupos de resgate. As fotografias deverão ser seladas em sacos de plástico para não se degradar.

As caixas de transporte deverão estar preparadas e os animais habituados a utilizá-las. Poderá ainda fazer-se uma preparação com um Pet Sitter que poderá ficar responsável pelos animais no caso do cuidador ser incapacitado.

Convém também programar qual é o procedimento em caso de emergência. Os animais deverão manter-se bem contidos em transportadoras ou na jaula normal. É ainda preciso programar a necessidade de transportar os animais no carro para escapar e para onde os evacuar. 

Referências: LafeberVet; Wappel and Schulte 2004; Rosskopf and Shindo 2003

Artigo anteriorO Coronavírus (COVID-19) pode ser transmitido a cães e gatos?
Próximo artigoAkita – Guia da Raça
Joana C. Prata, Msc., tem um mestrado em Medicina Veterinária pela Universidade do Porto e é fundadora d’O Meu Animal. Sempre viveu rodeada de animais, tendo agora como companheiros dois gatos (a Rita e o Romeu), três cadelas (a Kami, a Inês e a Pota), uma tartaruga (o Nicholas) e uma colónia com cerca de dez gatos. Neste momento faz investigação na Universidade de Aveiro, como aluna de doutoramento e bolseira em Biologia e Ecologia das Alterações Globais, onde tenta identificar fatores ambientais que possam ter impacto na saúde humana, animal e dos ecossistemas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor introduza o seu comentário
Por favor introduza o seu nome aqui