Retinopatias em cães

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Retinopatias em cães

A retina é um tecido localizado no fundo do olho que contém as estruturas responsáveis pela captação da luz, ou seja, está diretamente envolvido na visão. A retinopatia é uma lesão dessa estrutura como resultado de uma agressão e que poderá resultar em cegueira por perda do tecido recetor de luz.

A retinopatia normalmente resulta de fatores hereditários ou é secundária à presença de outra patologia. O tratamento da retinopatia passa pelo tratamento da causa primária.

Retinopatia secundária

As retinopatias secundárias resultam de uma agressão causada por outro agente. Em cães, as mais conhecidas são a retinopatia diabética e a retinopatia hipertensiva. As retinopatias ainda poderão ser secundárias à administração de um fármaco.

Retinopatia diabética

A diabetes é uma doença em que o pâncreas não produz insulina suficiente ou os tecidos deixam de responder à presença da insulina. A insulina é a hormona que regula a concentração de sangue no sangue. A diabetes provoca aumento do açúcar no sangue ao impedir a ação da insulina.

Cães com diabetes estão mais suscetíveis a problemas oftalmológicos, como as cataratas e o glaucoma. Mas a diabetes pode também afetar a retina do cão causando a retinopatia diabética. A diabetes debilita os vasos sanguíneos na retina, causando acumulação de líquido (edema) e sangue na córnea e comprometendo a visão.

Com a circulação comprometida, a retina fica deficiente em nutrientes e oxigénio. Para piorar o caso, novos vasos aparecem para tentar reverter esta situação. Mas estes novos vasos são frágeis e sofrem hemorragia facilmente. Na progressão há formação de cicatriz e destacamento da retina, com perda de visão. Por vezes, cirurgias a lazer permitem remover estes novos vasos e reduzir a velocidade de evolução da patologia.

Retinopatia hipertensiva

A hipertensão é o aumento da tensão arterial (pressão do sangue nos vasos). Os nossos animais de companhia também sofrem de hipertensão, principalmente secundária a outras patologias. No entanto, esta é sob-diagnosticada em cães e gatos devido à dificuldade em obter os seus valores.

Na hipertensão, os vasos no fundo do olho que alimentam a retina estão cheios de sangue. A pressão sobre estes vasos pode originar libertação de água para o fundo do olho (edema) e hemorragias. Nestes casos, o fluído (edema ou sangue) impedem a chegada de nutrientes e oxigénio à retina, levando à perda de visão.

Na retinopatia hipertensiva, se houver tratamento com controlo da hipertensão, redução do edema e hemorragia poderá haver recuperação parcial da visão. No entanto, o prognóstico varia com a causa da hipertensão e a sua resposta ao tratamento.

Retinopatia secundária à administração de fármacos

Alguns fármacos poderão ter efeitos secundários no cão, como o aparecimento de retinopatias. Por exemplo, em casos muito raros a ivermectina (desparasitante) provocou retinopatia em cães, provavelmente por um mecanismo envolvendo os vasos do olho e a formação de edema (acumulação de líquido nos tecidos).

Retinopatias hereditárias

As retinopatias hereditárias são alterações congénitas na estrutura do fundo do olho podendo causar diminuição ou perda de visão.

Retinopatia multifocal canina

A retinopatia multifocal canina é uma retinopatia hereditária causada por mutações num gene recessivo, ou seja, poderá não ser exprimido. Afeta os Pastores Australianos, Bulldog, Bullmastiff, Dogo Canario, Dogue de Bodeaus, Corso Italiano e cão dos Pirinéus.

Nesta patologia há alterações no fundo do olho, na retina, que normalmente começar a aparecer perto dos 4 meses. Estas alterações são várias áreas isoladas onde há atrofia da retina. A patologia é autolimitante apesar de por vezes causar perda de visão. Não existe tratamento específico.

Anomalia do Border Collie

Alguns cães da raça Border Collie sofrem de uma retinopatia congénita com herança recessiva, ou seja, só se expressa se o cão tiver os genes para esta anomalia em ambos os cromossomas (o da mãe e o do pai).

Nesta lesão, os cães apresentam uma zona malformada (hipoplasia) na retina. Ou seja, na parte do olho responsável por detetar a luz e converter esses sinais em sinais neurológicos está mal formada.

Em casos mais graves, poderão haver lesões mais extensas na retina, levando ao seu destacamento, ou a hemorragias intraoculares, podendo comprometer a visão. Mas nos casos mais comuns, a visão não é afetada de uma forma significante, sendo que os Collies afetados poderão levar uma vida normal.

Atrofia retinal progressiva

Esta retinopatia degenerativa é hereditária e compromete a função da retina, o tecido responsável por detetar a luz, podendo aparecer em cães ou gatos. Nos Setter irlandeses e Collies, aparece aos 4 a 6 meses, enquanto nos Caniche (Poodles) miniatura e outras raças entre os 3 a 5 anos.

Inicia-se como cegueira noturna, ou seja, dificuldade na visão em condições de pouca luz, e progride durante meses ou anos para uma cegueira total. Na fase final, pode ser acompanhado de cataratas. Infelizmente não há um tratamento eficaz para a atrofia retinal progressiva.

Ainda existe a atrofia retinal progressiva central que afeta principalmente Labradores retriever, Collies, Shetland e Briard. Nesta também há a degeneração progressiva das estruturas internas do olho com atrofia dos vasos e nervos, e diminuição de visão até cegueira. Nesta também não há tratamento.

Displasia retinal

A displasia retinal é o mau desenvolvimento congénito da retina, na sua totalidade ou em parte. Tem origem num defeito genético, trauma ou lesão, como uma infeção viral, que ocorre quando o animal ainda se encontra em gestação.

A displasia retinal pode afetar uma grande área da retina, comprometendo a visão, ou afetando pequenos focos, não se refletindo na acuidade visual do animal. Nos casos graves de displasia retinal, a retina pode-se destacar do fundo do olho, comprometendo a sobrevivência deste tecido e a visão do animal.

Ainda em Labradores, a displasia retinal pode associar-se a outros problemas congénitos como o encurtamento dos membros.

Hipoplasia do nervo óptico

A hipoplasia do nervo óptico é a má formação do nervo que conduz os sinais produzidos no olho para o cérebro, onde serão interpretados. Em cães, a hipoplasia do nervo óptico afeta principalmente os Caniche (Poodle) miniatura.

Já nos gatos, a hipoplasia pode resulta da infeção do feto com panleucopénia durante a gestação. A hipoplasia pode afetar apenas um olho ou ser bilateral. Os casos bilaterais resultam em cegueira. Já os casos unilaterais não apresentam cegueira nem sinais de perda de visão, sendo diagnosticados quando aparece outro problema no olho não afetado.

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Joana C. Prata, Msc., tem um mestrado em Medicina Veterinária pela Universidade do Porto e é fundadora d’O Meu Animal. Sempre viveu rodeada de animais, tendo agora como companheiros dois gatos (a Rita e o Romeu), três cadelas (a Kami, a Inês e a Pota), uma tartaruga (o Nicholas) e uma colónia com cerca de dez gatos. Neste momento faz investigação na Universidade de Aveiro, como aluna de doutoramento e bolseira em Biologia e Ecologia das Alterações Globais, onde tenta identificar fatores ambientais que possam ter impacto na saúde humana, animal e dos ecossistemas.

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