Excesso de vacinação em cães e gatos: sobredosagem de vacinas?

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O reforço anual das vacinas dos cães e gatos poderá ser um perigo para a sua saúde?

O excesso de vacinação nos animais de companhia tem sido debatido. Qual é a verdade sobre os receios dos cuidadores em relação às vacinas. Descubra tudo o que precisa de saber.

Excesso de vacinação dos animais de companhia: mito ou verdade?

Uma pesquisa no GoogleScholar oferece resultados sobre o excesso de vacinação de cães e gatos. No entanto, os poucos resultados que oferece relevantes para o tópico são escritos pela mesma autora, Elizabeth Hart. A autora admite ser motivada pela morte da sua cadela Sasha uma semana após a vacinação.

O médico veterinário não conseguiu relacionar a súbita gastroenterite hemorrágica que originou a morte de Sasha com a vacinação. No entanto, Elizabeth ficou convencida que esta foi a causa da morte, apesar de não explicar o mecanismo de ação para tal relação.

A traumatizante perda do seu animal de companhia levou Elizabeth a disponibilizar na internet vários textos não científicos em que discute o perigo das vacinas. A maioria dos seus argumentos baseia-se em comentários do “diz que disse”, sem se basear em publicações científicas.

A falta de formação na área veterinária da autora é clara. Por exemplo, Elizabeth argumenta que “A memória imunológica não se desliga automaticamente após um ou três anos” e que “os veterinários usam recomendações de vacinação não provadas”.

Porque é necessário fazer a revacinação anual dos animais?

A memória imunológica não se desliga num ponto preciso no tempo. Após a vacinação, inicia-se uma resposta inflamatória contra os antigénios da doença. Esta culmina com a produção de anticorpos pelos leucócitos B.

A produção aumenta gradualmente ultrapassar um patamar em que há anticorpos suficientes para haver proteção contra a doença (às duas semanas). No entanto, esta proteção não dura para sempre. Eventualmente, a produção de anticorpos volta a baixar progressivamente deixando de proteger o animal. Neste ponto, é necessária revacinação.

Ao contrário do argumentado por Elizabeth, as farmacêuticas testam o nível de anticorpos induzido pelas vacinas para provarem a sua eficácia. No entanto, apenas têm que garantir que os níveis de anticorpos se mantêm acima do patamar de proteção até 1 ano após vacinação.

Por uma questão prática, as farmacêuticas tendem a testar apenas a eficácia no primeiro ano. Isto não significa que a imunidade não seja mais prolongada. Mas sem testes científicos, as farmacêuticas podem apenas argumentar que é eficaz até ao primeiro ano. Se o animal não for revacinado após 1 ano e contrair a doença, a farmacêutica não poderá ser responsabilizada.

Algumas farmacêuticas têm lançado vacinas que apenas requerem vacinação após 3 anos, pois conseguiram comprovar que a proteção se mantem até essa data. Assim, os cuidadores poderão optar por vacinas com comprovada longa duração.

Serologia para titulação de anticorpos como guia para a revacinação

Um estudo publicado discute as vantagens e desvantagens da avaliação do quantidade de anticorpos circulantes no sangue do animal como ferramenta para a decisão de revacinar. Se o nível de anticorpos ainda estivesse acima do patamar de proteção, a revacinação poderia ser adiada. A autora argumenta que a titulação (quantificação) dos anticorpos seria a prática mais correta para decidir fazer a revacinação.

Isto porque os animais têm características individuais que influenciam o nível de anticorpos, ou seja, a eficácia da vacina ao longo do tempo. Enquanto alguns animais necessitam de uma vacinação anual, outros poderão manter os seus níveis de anticorpos ao longo de vários anos.

No entanto, a titulação ainda é uma técnica pouco usada devido ao seu custo. Acontece que o cuidador teria que pagar por este exame de diagnósticos, que é realizado em laboratórios externos com um custo elevado.

Os resultados do teste poderiam indicar a possibilidade de adiar a vacinação. Em alternativa, os resultados poderiam indicar um nível de anticorpos baixo e a necessidade imediata de revacinação. Neste último caso, a titulação estaria a duplicar o custo do procedimento. Por isso, muitos cuidadores preferem realizar apenas a vacinação sem titulação de anticorpos.

Excesso de vacinação e o cancro

Elizabeth também argumenta que as vacinas poderiam ser uma causa de cancro nos animais de companhia. Aqui, baseia-se na elevada incidência de cancro em cães e gatos. Quando pensamos nos cruzamentos necessários à criação de raças de cães e gatos, não é de surpreender que estejamos também a selecionar inadvertidamente a incidência de certas doenças, como o cancro.

Não está provado que as vacinas aumentem a incidência de cancro, com exceção do sarcoma felino. Mesmo neste caso, o sarcoma desenvolve-se numa baixa percentagem dos animais vacinados, sendo o risco de morte por doenças infeciosas para as quais a vacina protege muito superior.

Qual é a evidencia para o excesso de vacinação nos cães e gatos?

Um relatório de caso reporta um cão Cocker Spaniel de sete meses de idade que chega à clínica com letargia, anorexia, vómito e diarreia. Os exames diagnósticos são inconclusivos, Ao falar com o tutor, o médico veterinário descobre que este vacinou o jovem cachorro sete vezes (uma por mês) sem supervisão veterinária.

Como resultado da sobredosagem houve degradação do tecido renal. Os anticorpos da vacina, cobertos por antigénios do corpo, acumularam-se na parte filtrante do rim (o glomérulo), causando inflamação local e destruição do tecido. Assim, houve compromisso da função renal originando os sinais que o trouxeram à clínica.

No entanto, este é um caso excecional de sobredosagem. Numa revacinação anual, a dose de antigénios nunca será tão elevada para induzir lesão no rim. Se o fosse, já estaria descrita a relação da vacinação com este efeito adverso.

Qual é a opinião dos profissionais?

Um estudo tentou avaliar a informação disponível e a opinião dos profissionais sobre a sobredosagem. Os autores reconhecem que estudos anteriores demonstram que 71.5% dos cães ainda se encontravam protegidos contra doenças para as quais foram vacinados após 3 anos.

No entanto, não podemos ignorar os restantes animais que não mantêm a proteção e poderão estar suscetíveis a doença. Assim, o ideal será seguir as recomendações do fabricante da vacina ou realizar a titulação de anticorpos.

Como qualquer prática médica, as vacinas podem apresentar reações adversas, como reações anafiláticas. No entanto, estas são raras comparativamente ao número de animais vacinados. Esto é o caso de vacinas inativadas que parecem ser mais seguras.

Aumentar os intervalos de vacinação poderá reduzir o número de reações adversas. No entanto, poderá comprometer a proteção contra doenças com maior incidência e mortalidade. Assim, as vacinas trazem mais vantagens do que desvantagens.

Entre 243 médicos veterinários, a maioria concorda com a necessidade de utilizar a titulação de anticorpos (69.5%) mesmo quando esta maioria considera a sobrevacinação como um assunto de pouca importância (61%). Mesmo assim, a maioria dos profissionais (53.5%) procura fazer uma vacinação trianual para as vacinas base.

Conclusão

Reconhece-se que um maior número de vacinações poderá aumentar um pouco o número de reações adversas à doença, incluindo a anafilaxia e o risco de sarcoma de aplicação felino. No entanto, estes relacionam-se a qualquer prática de vacinação e não a uma argumentada sobredosagem de vacinas. Os riscos do excesso de vacinação ainda não estão comprovados.

No entanto, não há desvantagem em optar por vacinas com maior tempo de atuação. Poderá discutir com o seu médico veterinário a sua aplicação. Também poderá considerar fazer um teste de titulação de anticorpos no seu cão ou gato antes de realizar o reforço anual da vacina. Estas são considerações que ficam a cargo do cuidador.

No caso da vacina da raiva, requerida por lei nos cães portugueses, é necessário cumprir as indicações do fornecedor da vacina acerca da vacinação. Se não cumprir as indicações, legalmente o cão será considerado como não protegido e por isso estará a infringir a lei.

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Joana C. Prata, Msc., tem um mestrado em Medicina Veterinária pela Universidade do Porto e é fundadora d’O Meu Animal. Sempre viveu rodeada de animais, tendo agora como companheiros dois gatos (a Rita e o Romeu), três cadelas (a Kami, a Inês e a Pota), uma tartaruga (o Nicholas) e uma colónia com cerca de dez gatos. Neste momento faz investigação na Universidade de Aveiro, como aluna de doutoramento e bolseira em Biologia e Ecologia das Alterações Globais, onde tenta identificar fatores ambientais que possam ter impacto na saúde humana, animal e dos ecossistemas.

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