Otohematoma canino

Se o seu cão apresentar inchaço, vermelhidão e dor na orelha poderá estar a sofrer de um otohematoma canino.

O otohematoma é a acumulação de sangue entre a cartilagem e a pele do pavilhão auricular devido a lesões e traumas.

O tratamento é variado, passando por tratamento médico, aspiração do fluído por seringas e cirurgias de correcção.

O que é o otohematoma canino?

O otohematoma, ou hematoma auricular, é uma tumefação flutuante e dolorosa que aparece na face interna da orelha dos cães, podendo ocorrer mais raramente em gatos. Os principais sintomas do otohematoma são inchaço, vermelhidão, dor e desconforto na orelha afectada.

A lesão tem origem na ruptura de vasos sanguíneos levando à acumulação de fluído entre a cartilagem e a pele da face interna da orelha. Pensa-se que a ruptura dos vasos tenha origem em processos traumáticos, como coçar ou abanar a cabeça.

A lesão acontece só numa das orelhas, sendo raro afectar as duas. Aparece como uma lesão pequena que pode progredir envolvendo toda a orelha. No seu interior encontra-se fluído que poderá levar à formação de um seroma.

O otohematoma provoca muito desconforto ao cão e a sua evolução pode originar deformação e espessamento da orelha. Por isso o animal deverá ser seguido por um médico veterinário.

Sintomas do otohematoma canino

  • Inflamação da orelha: inchaço, vermelhidão, calor, tumefacção
  • Coçar da orelha
  • Sacudir a cabeça
  • Intolerancia a mexer na cabeça por dor

Factores que predispõem ao otohematoma

  • Raças: raças de orelhas pendentes estão mais predispostas uma vez que a orelha está sujeita a mais trauma. Também pode ocorrer em Pastor Alemão, Cocker Spaniel, Basset Hound, Golden Retriver, e Labrador Retriver.
  • Idade: incide principalmente em animais adultos e velhos (3 a 7 anos).
  • Tamanho: animais de médio e grande porte.
  • Outras patologias: otite externa, dermatite atópica, etc.

Causas do otohematoma canino

Pensa-se que a principal mecanismo de formação do hematoma auricular resida na ruptura de vasos sanguíneos da orelha, uma vez que é altamente irrigada. A ruptura pode dever-se a multiplas causas e resulta na hematoma restricto entre a cartilagem e a pele da orelha.

O coçar e abanar a cabeça são reacções normais do cão quando sente desconforto no ouvido ou pavilhão auricular. Ao coçar pode friccionar a pele na cartilagem da orelha causando ruptura dos vasos. A agitação intensa da cabeça pode originar fractura da cartilagem da orelha e extravasamento de sangue para esse espaço.

Como a maioria das lesões são observadas na face interna da orelha (zona côncava) é pouco provável que o trauma se deva ao coçar, uma vez que incide na face exterior da orelha (convexa). Por isso pensa-se que há maior probabilidade de se dever à agitação da cabeça.

A lesão inicia-se com a acumulação de sangue entre a cartilagem e a pele da orelha. Enquanto a pressão do sangue no vaso sanguíneo for superior à pressão do hematoma continua a haver passagem do sangue para os tecidos.

Durante a evolução temporal ocorre deposição de fibrina e aumento de tamanho. Estes aumentam a pressão do otohematoma, estancando a hemorragia. Apesar do otohematoma canino ser auto-limitante por este motivo, a sua resolução é lenta e pode causar deformação da orelha.

Ainda não há certezas quanto à causa do hematoma. No entanto existem várias patologias e factores que têm sido encontrados em animais com otohematomas:

Otite externa: é uma patologia frequente que provoca desconforto ao cão, levando-o a coçar a orelha e abanar a cabeça.

Sarna auricular: os ácaros auriculares (Otodects cyanotis) causam otite externa e a sua saliva contem alergénios que causam uma reacção imunomediada possivelmente originando um otohematoma.

Auto-imunidade: alguns estudos detectaram a presença de auto-anticorpos no sangue de animais com otohematomas, no entanto a causa auto-imune não foi comprovada.

Hipersensibilidade: o sistema imune reage de forma exagerada a alergénios exteriores inócuos causando dermatite alérgica e otite, que através das suas lesões e aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos causam otohematoma.

Trauma na orelha: o traumatismo auricular causa desconforto que leva o animal a coçar e a agitar a cabeça, levando à ruptura dos vasos sanguíneos da orelha. O trauma pode dever-se a otite, parasitas, alergia, corpos estranhos ou neoplasias. Outros traumas como lutas ou bater com as orelhas na mobilia também podem ser causa de otohematomas.

Outras doenças: hiperadrenocorticismo, hipotiroidismo e infecção por Ehrlichia canis foram sugeridos como possíveis causas.

O que fazer quando o meu cão tem um otohematoma?

O otohematoma é uma patologia que deverá ser tratada o mais cedo possível. Se vir a orelha de cachorro inchada deverá consultar o seu médico veterinário com brevidade. Isto porque o otohematoma crónico tem um tratamento mais complicado, podendo apenas ser tratado cirurgicamente. Por outro lado, a sua progressão poderá resultar em deformação irreversível do pavilhão auricular do cão.

Diagnóstico do otohematoma

O diagnóstico baseia-se no exame físico e história pregressa. Na palpação da orelha sente-se um conteúdo líquido. Na história pode relatar-se manifestações de prurido auricular e início agudo do otohematoma.

Deve-se tentar identificar a causa do prurido da orelha. Para tal, é comum realizar-se o exame do canal auditivo com o otoscópio, citologias auriculares e até radiografias do crânio e um exame clinico dermatológico detalhado.

Utilizando-se uma seringa e agulha, pode-se recolher fluído do otohematoma que será analisado por citologia. O resultado da citologia pode ajudar a confirmar o diagnóstico e a causa do otohematoma.

Tratamento do otohematoma em cães

O hematoma simples é auto-limitante e poderá desaparecer por si. No entanto deverá ter sempre acompanhamento veterinário porque causa desconforto ao animal e pode evoluir para casos mais graves.

Por outro lado, o tratamento precoce tem maior taxa de sucesso. Sem tratamento a orelha pode sofrer fibrose e ficar permanentemente lesada e deformada, originando formações semelhantes a couve-flor.

O objectivo do tratamento é eliminar o prurido auricular, drenar o fluído do hematoma e manter a posição adequada entre a pele e cartilagem da orelha.

Existem tratamentos médicos mais baratos. No entanto o tratamento cirúrgico é mais dispendioso e requer anestesia, mas permite resolver o problema mais rapidamente e reduzir a recidiva. A cirurgia deve sempre corrigir o problema da cartilagem auricular.

Drenagem com agulha

agulha

É um procedimento simples, rápido e barato e sem anestesia. No entanto só tem sucesso quando realizado em hematomas com fluído recentes (até 7 dias), tendo maior sucesso quando realizado no primeiro dia.

O conteúdo do otohematoma é aspirado utilizando-se uma agulha acoplada a uma seringa. Para reduzir a recidiva, pode ser realizado diariamente ou com elevada frequência.

A injecção de baixas doses de corticosteróides na lesão parece facilitar a resolução. Estes também poderão ser administrados por via oral para reduzir o prurido, factor predisponente a otohematoma.  Também se poderão aplicar antibióticos por via oral e heparina tópica.

Resolução por incisão e sutura

incisão-sutura

É a técnica com maior sucesso e recomendada para hematomas grandes ou crónicos. A desvantagem é a necessidade de anestesia geral para a realização da cirurgia.

Inicia-se com a indução anestésica do animal, remoção dos pelos da orelha e desinfecção da área cirúrgica. Depois é feita uma incisão sobre o hematoma. A incisão pode ter várias formas, como recta, cruzada, elíptica, mas a incisão em S parece ter maior sucesso.

Depois é removido o tecido do otohematoma, removendo-se os coágulos e a fibrina, e lavando-se com soro fisiológico. Por último, aplicam-se suturas com objectivo de eliminar o espaço morto deixado pelo otohematoma. A suturas são removidas passado 2 a 3 semanas.

Durante a cirurgia, para além das suturas podem ser utilizados outros materiais para comprimir a orelha e eliminar o espaço morto. Frequentemente são utilizados botões que permitem distribuição da pressão.

Pode ser aplicada uma esponja de Buster que permite pressionar e absorver os fluídos. Outros métodos utilizam algodão, espátulas, agrafos, esponjas, papelão, plástico, adesivos, películas de raio X.

A incisão deve ser deixada aberta para permitir a drenagem de exsudados. É essencial que o animal fique com o colar isabelino para evitar trauma na orelha. Ainda podem ser aplicados pensos para proteger a orelha.

Aplicação de drenos

dreno

Os drenos são um tratamento simples que permite a drenagem de otohematomas com pouca fibrina. Elevado conteúdo de fibrina impediria a fluxo de fluído do dreno.

A técnica consiste em aplicar um dreno tubular de silicone no eixo maior da orelha, tendo a ponta anterior e posterior na parte de fora permitindo eliminar o fluído. O dreno é seguro por suturas e mantem-se por 14 a 21 dias. Podem ser administrado prednisona por via oral para reduzir a formação de fibrina.

Outras formas semelhantes são a utilização de um tubo mamário bovino que funciona como dreno ou a aplicação de cateteres ligados a sacos em vácuo. A vantagem do tratamento por drenagem é poder ser aplicado em animais acordados ou tranquilizados, sem recurso a anestesia geral.

Tratamento alternativo do otohematoma

Pode ser instituído um tratamento médico com base na aplicação de tratamentos tópicos, corticoides orais e pensos de compressão. Como tratamento tópico é descrita a aplicação de DM Gel sobre a orelha. Este tem uma função anti-coagulante e anti-inflamatória, facilitando a circulação sanguínea nos tecidos e reduzindo a inflamação.

Outros tratamentos

Pensos: têm como objectivo proteger a orelha e incisão de traumas e infecções e segurar o dreno, caso seja utilizado. Pensos compressivos podem evitar a recorrência. O penso deve impedir a queda da orelha e realiza-se sobre a cabeça ou sobre o pescoço, sendo o último mais tolerado pelo animal. A mudança do penso será frequente uma vez que são difíceis de manter intactos.

Orifícios: utilizando-se um instrumento de biopsia (punch) fazem-se vários orifícios circulares na orelha que permitem a drenagem.

Sutureless hematoma repair system: consiste em duas placa de silicone aplicadas nas duas faces da orelha que permitem a sua compressão.

Homeopatico: tratamentos homeopáticos com Hammamalis, Bufo e Arnica em combinação com corticoides orais e heparina tópica aparentam ter bons resultados.

Laser: utiliza-se um laser de CO2 para fazer incisões na superfície do hematoma. A vantagem é atrasar a cicatrizarão e permitir que a incisão se mantenha aberta facilitando a drenagem.

Selante de fibrina: com o animal anestesiado faz-se duas incisões no hematoma e injecta-se o selante de fibrina na lesão. Este limita hemorragia e reduz as complicações. No entanto pode recidivar.

Prognóstico do otohematoma

O otohematoma não é grave quando sujeito a tratamento pelo médico veterinário. No entanto pode recidivar.

Em termos estéticos, normalmente a orelha mantem o seu aspecto natural. Algumas complicações podem originar deformação e enrugamento da orelha, principalmente me cães de orelhas erectas.

O otohematoma recidivante pode ocorrer devido à falta de correcção do factor que o causou ou devido ao tratamento escolhido. Outras complicações são a pericondrite que resulta em necrose, infecção, trauma e fistução, calcificações da cartilagem e obstrução do canal auditivo.

Otohematoma felino

O otohematoma em gatos apresenta-se em tudo semelhante ao canino, sendo menos frequente. Apesar dos gatos terem orelhas menos pendentes, estão sujeitos aos traumas de coçar e agitar a cabeça, originando ruptura de vasos sanguíneos e a formação de otohematomas em felinos.

A causa mais comum nos gatos é a presença de ácaros nos ouvidos. O que leva a abanar a cabeça e coçar a orelha, resultando em hematoma. Otites também são uma das causas. Menos comuns, são alergias, patologias imunes e falta de coagulação.

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