Dieta de Carne Crua para cães e gatos

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O que é a dieta de carne crua (ou dieta crua para cães)?

A dieta de carne crua é uma dieta caseira que simula a composição de uma presa através do fornecimento de carne, vísceras, ossos crus e alguns suplementos. Esta dieta alega trazer vantagens como menor carga glicemica, protecção do sistema urinário, menor risco de periodontite e melhoramento das fezes. Como desvantagens apontam a carga acrescida de trabalho ao preparar refeições diárias para os animais.

Porque é que os donos preferem utilizar a dieta de carne crua?

Os donos têm como objectivo fornecer uma melhor dieta, natural, orgânica e sem aditivos e contaminantes. Os animais aceitam a dieta crua para cães e gatos devido à sua elevada palatabilidade.

Vantagens:

  • Simula a presa
  • Menor carga glicemica
  • Melhoramento da consistencia das fezes
  • Sem aditivos e conservantes

 

Como fornecer uma dieta de carne crua ao seu cão?

O alimento a fornecer ao seu animal por dia corresponde entre 3 a 10% do seu peso corporal (fornecendo-se maiores valores a raças mais pequenas). Em cães adultos fornece-se 50% de ossos carnudos, 25% de vegetais, 15% carnes e 10% de vísceras, suplementando-se com sal iodado e óleo vegetal. Recomenda-se uma congelação previa das carnes para reduzir o risco de transmissão de parasitas.

Quais são os riscos da dieta de carne crua?

A alimentação crua para cães e gatos é dificilmente completa ou equilibrada, mesmo recorrendo à variação de alimentos e à suplementação. A maioria das dietas apresenta deficiência em cálcio, potássio, fósforo, zinco e taurina. Suplementos humanos de vitamina D são frequentemente fornecidos em excesso. Esta alimentação poderá originar hiperparatiroidismo secundário, tanto pela baixo concentração em cálcio fornecida como por alimentação com vísceras que incluam a tiróide.

Apesar destas dietas terem baixas quantidades de carboidratos, têm muita gordura com elevado valor calórico. Podem contribuir para a obesidade e crescimento rápido, o que pode originar patologias ortopédicas.

A digestabilidade da dieta crua não é melhor quando comparada com rações comerciais, havendo variações nos resultados dependendo do nutriente em causa. Ou seja, a dieta não é mais absorvida pelo organismo em comparação com as dietas comerciais.

Os ossos crus são perigosos para a saúde do seu animal, podendo causar perfurações e obstruções das vísceras ou provocar facturas dentarias. A dieta rica em ossos não fornece cálcio que o seu cão necessita, sendo deficiente neste mineral. Apesar dos ossos reduzirem o tártaro, não contribuem para a redução do risco de placa dentária ou periodontite.

Carne crua pode por em risco a saúde do animal devido à presença de bactérias como Campylobacter e Salmonella, ou parasitas como o Toxoplasma. Carne para consumo humano pressupõe que irá ser cozinhada portanto poderá conter estes patogénios. A congelação previa permite reduzir o risco, mas não o elimina por completo.

Os restos da alimentação deverão ser descartados de imediato quando o cão termina a sua refeição. As taças deverão ser lavadas para impedir o crescimento microbiano.

O contacto com o cão que segue a dieta pode por em risco a saúde dos seu donos devido à transmissão destes agentes. Dietas comerciais apresentam maior segurança visto que seguem um rigoroso controlo microbiologico.

A maior resposta imune registada pode ser em reposta à ingestão destes agentes pela alimentação. Por outro lado, esta dieta poderá trazer vantagens quanto ao equilíbrio do microbioma intestinal.

Conclusão

Se pretende alimentar o seu animal com uma dieta de carne crua, deverá considerar as vantagens e desvantagens desta dieta. Tomando a decisão de a seguir, é recomendado consultar um medico veterinário nutricionista e informar-se sobre as necessidades específicas do seu animal. Também poderá recorrer a dietas comerciais de carne crua, como BARF®, que poderá facilitar a vida do dono.

4 COMENTÁRIOS

  1. 1. “Esta dieta é dificilmente completa ou equilibrada, mesmo recorrendo à variação de alimentos e à suplementação. A maioria das dietas apresenta deficiência em cálcio, potássio, fósforo, zinco e taurina.”

    Discordo. Uma alimentação que consista na presa inteira (carcaça, orgãos, ossos, gordura, carne, basicamente o animal INTEIRO) nunca será deficitária, pois tem tudo o que o animal necessita a nível nutricional e nas proporções ideais. Aliás, a sobre-suplementação é que é uma prática errada e deve ter sida em atenção a utilização de suplementos desnecessários para um animal carnívoro oportunista.

    2. “Apesar destas dietas terem baixas quantidades de carboidratos, têm muita gordura com elevado valor calórico”

    Discordo. Apenas têm elevada % de gordura se o dono assim o entender. Alimentar o animal com carnes magras (caça, frango, coelho, etc) é uma forma eficaz de manter a dieta com um baixo teor de gordura. Não existe uma receita exata para este tipo de alimentação, pelo que o dono é que deve ajustar a dieta às necessidades do seu animal.

    3. “A digestabilidade da dieta crua não é melhor quando comparada com rações comerciais”

    Discordo. Gostaria de saber em que evidências se baseou para fazer esta afirmação. Este estudo prova o contrário. Prova que a digestibilidade e absorção de nutrientes vitais é melhor na dieta crua que não ração. https://therawfeedingcommunity.com/2015/01/08/digest-this-kibble-may-actually-digest-faster-than-raw/

    4. “Os ossos crus são perigosos para a saúde do seu animal, podendo causar perfurações e obstruções das vísceras ou provocar facturas dentarias.”

    Concordo no caso de ossos de animais de grande porte (porco, vaca, peru, etc).
    Discordo no caso de ossos de animais de pequeno porte (frango, coelho, rã, perdiz, etc).

    5. “Carne crua pode por em risco a saúde do animal devido à presença de bactérias como Campylobacter e Salmonella, ou parasitas como o Toxoplasma.”

    Discordo. O ácido estomacal de um cão elimina facilmente estas bactérias. Pensem bem, eles comem comida podre do chão, lambem os próprios genitais e podem até comer fezes (dos próprios ou de outros animais). Não é carne crua que vai deixar um cão doente.

    6. “Dietas comerciais apresentam maior segurança visto que seguem um rigoroso controlo microbiologico.”

    Discordo. Há mais casos reportados de bactérias/toxinas em ração comercial que em carne crua para consumo humano (que é a que donos conscientes dão aos seus animais). Além disso, existem artigos científicos que demonstram os riscos escondidos na alimentação comercial seca (vulgo: ração):

    Venier, Marta and Hites, Ronald. Flame Retardants in the Serum of Pet Dogs and in Their Food. Environ. Sci. Technol. 2011, 45 (10):4602-4608

    Knize, M.G, Salmon, C.P., Felton, J.S. Mutagenic Activity and Heterocyclic Amine Carcinogens in Commercial Pet Foods. Mutagenic Research/Genetic Toxicology and Environmental Mutagenesis. August 2003 539 (1-2): 195-201.6.

    Rohrmann, S., Hermann, S. and Linseisen, J. Heterocyclic Aro- matic Amine Intake Increases Colorectal Adenoma Risk. Am J Clin Nutr. May 2009 89 (5): 1418-24

    Entre inúmeros outros.

    • Boa tarde Joana, a dieta sem carne é uma opção do dono à qual não me oponho. Pretendo também mostrar as suas desvantagens para os donos fazerem uma decisão informada.

      Para escrever este artigo baseei-me no seminário da veterinária Marge Chandler, no estudo Michel KE (2006) “Unconventional Diets for Dogs and Cats” Veterinary Clinics Small Animal Practice 36, 1269-1281 e no livro Canine & Feline Nutrition: A Resource for Companion Animal Professionals da doutora Linda Case.

      1. Ficam aqui algumas citações do estudo:
      “In one report, three persons feeding home-prepared raw food to their dogs provided samples of the diets for analysis of key nutrients. When the analyses were compared with the canine AAFCO nutrient profiles, all three of the diets were found to have nutrient excesses and deficiencies […] a report of two different litters of puppies fed raw food diets, in which all the puppies developed severe nutritional osteodystrophy by 6 weeks of age”

      “With regard to the second concern, food safety, aside from the risk of gastrointestinal obstruction posed by feeding bones, home-prepared and commercial raw food diets have been evaluated for bacterial contamination. In one investigation, 80% of home-prepared diets containing chicken were found to be contaminated with Salmonella spp […] The risk of contracting an infectious disease from a raw food diet is not confined to the pets themselves.”

      2. Aqui posso concordar que depende da receita escolhida pelo dono.

      3. A digestibilidade não é avaliada pela velocidade em qual da dieta passa no sistema gastrointestinal. A digestibilidade avalia-se pelos nutrientes absorvidos e utilizados pelo organismos, considerando a quantidade ingerida e a excretada pela urina e fezes. Para tal deveria ter sido realizado um teste com vários animais (n) para considerar a variação individual e recolherem-se estes produtos de excreção ao longo de vários dias comparando com um controlo alimentado com ração comercial.

      4. Todos os ossos crus estão sujeitos a causar problemas de saúde, como obstruções, fractura de dentes e perfurações gastrointestinais. Os ossos de frango são os mais perigosos. As aves possuem ossos pneumáticos, ou seja ocos para circular o ar, e para tal depositam maior teor de cálcio e fosfato para o exterior ser robusto. Isto faz com que esses ossos mais calcificados formem lascas mais rígidas e capazes de perfurar as vísceras do seu animal.

      5. O ácido estomacal consegue remover parte das bactérias mas não a totalidade. O cão pode-se tornar portador da bactéria e depois transmiti-la aos donos. Na natureza por algum motivo os animais não vivem tanto tempo. Por outro lado, sabe-se perfeitamente que todos os frangos vendidos para consumo humano contêm Salmonela e E. coli, que é aceitável até um certo número visto que serão cozinhados. Se cozinhar o cão está a ingerir todos estes organismos.

      6. Existem mais casos reportados em ração comercial porque há um controlo e há reclamações à marca. Não havendo controlo das rações de carne crua e não sabendo quem as fornece ao seu animal é difícil existirem dados.

      Acho engraçado escolher os flame retardants porque fiz investigação em plásticos. Todos nós estamos expostos a este perigo através das roupas, dos tapetes e lençóis e outros objectos de plásticos. Os cães também estão expostos através dos brinquedos e destes mesmos veículos. Lógico que alimentação comercial embalada em plástico terá mais risco e concentração destes contaminantes. Mas poderá comprar rações em embalagem de cartão por exemplo.

      Também não defendo que as rações comerciais são 100% seguras, não há nada 100% seguro. As aminas heterociclicas que são mutagénicas geram-se quando o alimento é cozinhado durante longos períodos de tempo a elevadas temperaturas. O próprio estudo considera o processo de produção das rações como a causa do problema, e pode ser mudado para atingir maior segurança.

      Se quiser pode escrever um texto factual baseado nos estudos com as suas referências para incluirmos neste artigo. Assim podemos ter uma perspectiva diferente. O meu objectivo, como já mencionei, é alertar os donos para os riscos desta dieta de forma a tomarem uma decisão consciente.

  2. O problema e que a grande parcela de profissionais, são de alguma forma influenciados pelo grande mercado de alimentação para cães. Discordo totalmente, ja criei cães comendo somente ração Premium e cães comendo somente carne ossos e viceras, e sem duvidas os últimos adoecem menos, vivem mais e são mais sadios. E que se saiba os cães são lobos domésticos, e não e conhecido nenhum caso de lobo comendo ração.

    • Olá Cesar,

      Gostaria de esclarecer alguma das suas dúvidas relativas à dieta de carne crua. O nosso conteúdo tem como objetivo alertar os donos para o risco inerente a essa dieta, mas a decisão final é do dono.

      Primeiro não devia fazer afirmações a acusar os profissionais da área da medicina veterinária de fraude quando não tem fundamentos para o seu argumento, ou seja, é difamação. Como qualquer profissional de saúde, o médico veterinário procura o melhor para o seu paciente. Eu não teria qualquer vantagem em publicitar rações comerciais uma vez que não as vendo, não tenho qualquer patrocínio e actualmente a minha única fonte de rendimento é a investigação. Os meus argumentos, tal como o dos meus colegas, assentam-se nas evidencias cientificas que esta dieta tem consequências negativas enquanto que não há qualquer prova de que traga benefícios. Aliás, poderia fazer o mesmo argumento e acusá-lo de ser um agente das rações de dietas cruas comerciais. Logo, continuando a este argumento não chegamos a qualquer conclusão.

      A observação empirica que fez da sua experiência pessoal não tem valor. Existem muitas variações individuais que podem tornar cada cão mais saudável ou menos. Ou seja, existem tantos fatores a influenciar a saúde do animal que não podemos concluir por mera observação que uma dieta é melhor que a outra. Devido a esta dificuldade é que se criou o método cientifico, em que são analisados grandes números de indíviduos, reduzindo a importância de outros fatores, ou são utilizados grupo com fatores muito semelhantes. Após o cientista produzir o resultado, para este ser publicado tem que ser validado por especialistas sem ligação ao estudo que fazem critícas e procuram erros. Só após todo o processo é que o estudo é publicado, garantido ao máximo a sua integridade. E o resultado de estes estudos, já mencionados no meu comentário anterior, é que as dietas cruas podem causar infeções e desequilibrios nutricionais. Aos anteriores, acrescento esta recente publicação que demonstra que a maioria das dietas cruas comerciais contêm patogénios que põem em risco a saúde do animal.

      Os cães não são lobos domésticos. O cão divergiu do lobo há cerca de 10 000 anos atrás e tornou-se uma espécie com características diferentes do lobo. A estrutura corporal do cão alterou-se, assim como o seu comportamento e a sua capacidade digestiva. Ao partilhar alimentos com os humanos primitivos, os cães adaptaram-se e tornaram-se capazes de digerir carbohidratos. Portanto, as necessidades nutricionais do cão e do lobo não são as mesmas. Ainda para pior, devido ao modo de produção intensiva, as carnes para consumo humano estão frequentemente contaminadas com patogénios (ex. salmonela na carne de galinha). Para o ser humano não há problema, pois a carne será cozinhada eliminando estes organismos, mas ao fornecê-la crua ao cão arrisca-se a uma infeção ou infestação porque os patogénios podem sobreviver ao ácido do estômago.

      Agora, mesmo perante toda esta informação a escolha final continua a ser de cada dono. A nós, médicos veterinários, cabe-nos apenas informar os donos das alternativas e consequências de cada escolha.

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