Doenças genéticas hereditárias mais comuns em cães de raça

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Os cães de raça pura (ou pedigree) sofrem uma pressão seletiva elevada de forma a garantir que as suas características acompanham os requisitos impostos por associações, com o Clube Português de Canicultura. Os criadores são recompensados por atingir estes objetivos, seja pela venda de animais como pelos melhores resultados nas exposições de raças.

No entanto, o cruzamento de parentes e pressão seletiva para certas características estão na origem de problemas de saúde e bem-estar no cão. As doenças mais comuns em cães de raça podem resultar da conformação anormal ou só aparecer quando combinados com outros fatores, como a obesidade.

Na verdade, cães de raça pura são muito mais predispostos a sofrer de doenças genéticas recessivas, que se expressam quando ambos os progenitores passam o mesmo gene defeituoso à cria. Um estudo da genética de mais de 18 000 cães de raças pura e 83 000 cães sem raça definida revelou que as raças puras são 2.8 vezes mais predispostas a sofrer de doenças recessivas.

Quais são as doenças genéticas hereditárias mais comuns em cães de raça?

É importante determinar-se as desordens genéticas mais comuns nos animais de forma a poder-se prevenir ou intervir precocemente. Por isso, seguem-se as patologias hereditárias mais comuns e as raças de cães mais afetadas por estas.

O cancro é uma das doenças que pode ter uma origem genética, e assim relacionar-se com a criação de cães de raça. Pensa-se que o fator hereditário resulta de mutações nas células que combatem o cancro ou em genes que promovem o cancro. Raças com menor incidência de cancro incluem Beagles e Daschshunds. Raças com maior incidência incluem:

  • Osteossarcoma: Grand Danois, São Bernardo, Doberman Pincher, Labrador.
  • Cancro da pele e tecidos moles: São Bernardo, Basset Hound, Pastor Alemão, Golden Retrievers, English Setters, Grand Danois, Pointers, Flat-Coated Retrievers.
  • Cancro da mama: Pointers, Caniches, Pulik, Cocker Spaniel, Pointer Alemão de Pelo Curto, Boston Terrier.
  • Melanomas: Scottish Terrier, Pointer Alemão de Pelo Curto, Cocker Spaniels, Pointers, Weirmeraners, Golden Retrievers, Boxers.

A atrofia retinal progressiva é uma doença autossómica recessiva onde há degeneração dos recetores de luz na retina (cones e bastonetes), originando cegueira. Entre as raças mais afetadas estão os cães o Cocker Spaniel Inglês, o Labrador Retriever, os Caniches miniatura e toy, e o Cão de Água Português.

A epilepsia hereditária acorre em várias raças e normalmente ocorre após o primeiro ano de vida, podendo ser recorrente ou apenas causar um ou dois ataques convulsivos. No caso da epilepsia hereditária, os animais da mesma família ou raça costumam ter apresentações semelhantes. A herança deste problema parece ser complexa e destaca-se na raça Tervuren Belga.

A displasia da anca é uma malformação da articulação da anca que pode originar claudicação (mancar). A displasia em raças puras resulta principalmente da pressão seletiva para certas conformações que fragilizam a articulação. É mais frequente em raças como o Bulldog, Pug, e São Bernardo.

O hipotiroidismo hereditário é causado por um defeito hereditário autoimune onde a tiroide é destruída por anticorpos, resultando em baixos níveis de hormona tiroide. A produção de anticorpos contra a tiroide ocorre entre o 1º e 3º ano de vida. As raças mais afetadas incluem Setter Inglês e Boxer.

A anomalia cardíaca congénita incluí defeitos no coração como o canal arterial persistente, estenose aórtica, defeito do septo ventricular e estenose ventricular. Quando estes defeitos são encontrados num animal de raça pura, é recomendando que os seus parentes sejam também avaliados.

A atopia é uma inflamação da pele com prurido intenso resultante da resposta a alergénios ambientais. É comum em Labradores e Golden Retrievers, mas também afetam West Highland White Terrier, Setter Inglês, Setter Irlandês e Dalmatas.

A luxação da patela é uma doença comum em raças pequenas que resulta da deslocação para uma posição anormal da patela do joelho, podendo ou não originar artrite e dor. As raças com maior incidência incluem Lulu da Pomerania, Chow Chow e Cocker Spaniel.

A displasia do cotovelo pode resultar de deformação óssea, fratura ou osteocondrite da articulação do cotovelo, bem como do crescimento anormal entre os ossos do rádio e ulna. A maioria dos cães sofre de displasia do cotovelo grau I, onde não há doença clínica observável.

A dilatação ou volvo gástrico ocorre em raças grandes ou gigantes onde há predisposição para a dilatação ou torcer do estômago, podendo pôr em causa a vida do animal. Fatores como comer rápido, a profundidade do peito e uma única refeição ao dia podem predispor a esta doença. Entre as raças mais afetadas estão os Grand Danois, Caniche, Pastor Alemão e Boxer.

A doença de von Willebrand é uma doença autossómica recessiva em que a falta de um fator de coagulação do sangue poderá originar sangramentos excessivos. Afeta com maior frequência as raças Corgi, Dobermenn Pinscher, Pastor Alemão, Golden Retriever, Pointer Alemão de Pelo Curto e Caniche.

A sensibilidade a fármacos ou à ivermectina é um defeito comum em Collies e outras raças devido a um defeito em genes como o MDR1. O defeito no gene pode tornar fármacos de uso comum em neurotóxicos devido a alterações na barreira entre o sangue e o cérebro. As raças mais afetadas incluem Collie, Pastor Australiano, e Galgos de Pelo Comprido.

Quais são as doenças genéticas mais comuns nas raças mais populares de cães?

As doenças genéticas mais comuns em raças puras de cães incluem muitas das patologias faladas anteriormente, mas organizadas por raça.

As doenças mais comuns em Pastores Alemães incluem mielopatia degenerativa e problemas na medula espinhal que pode resultar em paralise e perda de força nos músculos das pernas. Também sofrem de displasia da anca. Também podem sofrer de problemas de visão, incluindo cegueira, e epilepsia.

As doenças mais comuns em Basset Hounds resultam das suas proporções incluindo dilatação e volvo gástrico resultante da acumulação de gás no estômago com impedimento na passagem deste para o resto do sistema, causado desconforto e podendo ser fatal.

As doenças mais comuns em Bulldogs Inglês e Francês resultam dos critérios da raça com seleção de focinhos curtos que resulta no síndrome braquicefálico com problemas respiratórios. Para terem uma vida normal, muitos destes cães têm que ser submetidos a cirurgia. Devido à sua cabeça larga, os partos são difíceis, recorrendo-se com frequência à cesariana.

As doenças mais comuns em ChowChow incluem a displasia do cotovelo e anca que podem limitar a mobilidade do animal. Também poderão ter problemas respiratórios devido ao estreitamento das vias respiratórias, resultando em ressonar e tosse.

As doenças mais comuns em Cocker Spaniels incluem doenças ósseas, cardiomiopatia e problemas oftálmicos, como a atrofia retinal progressiva, cataratas e glaucoma, que podem resultar em cegueira.

As doenças mais comuns em Caniches (Poodles) incluem problemas de visão, desde cataratas e cegueira, e problemas nas articulações, especialmente em Poodles sénior.

As doenças mais comuns em Pugs incluem patologias oftalmológicas, incluindo úlceras e protusão ocular, onde o olho sai da órbita, podendo originar cegueira. O parto também é complicado pela cabeça do Pug, necessitando com frequência de cesariana.

As doenças mais comuns em Goldens e Labradores Retriever incluem a displasia da anca e cotovelo, problemas ósseos e articulas e desenvolvimento de cancro.

As doenças mais comuns em São Bernardo incluem anomalias no músculo cardíaco (cardiomiopatia), displasia da anca e cotovelo, maior risco de cancro dos ossos (osteossarcoma) e menor esperança de vida (<10 anos).

As doenças mais comuns em Rottweiler incluem deformações ósseas (osteocondrose) que origina fraqueza óssea com a idade, problemas ósseos e cardíacos, e maior risco de cancro.

As doenças mais comuns em Yorkshire Terrier incluem problemas digestivos que requerem uma dieta cuidada, colapso da traqueia, e maior incidência do shunt-portossistemico no fígado que pode originar acumulação de tóxicos no sangue.

As doenças mais comuns em Dalmata incluem surdez e tendência para o desenvolvimento de pedras nos rins ou bexiga (urolitíase).

As doenças mais comuns em Boxer incluem problemas cardíacos, problemas da tiroide e alergias da pele, mas também displasia do cotovelo, dilatação gástrica e cancro.

As doenças mais comuns em Shih Tzu incluem problemas oftálmicos devido às olhos grandes e salientes, problemas respiratórios em climas quentes e húmidos, e problemas de coluna no pescoço e dorso, principalmente com a protrusão de discos vertebrais.

As doenças mais comuns em Pinscher incluem displasia da anca, cardiomiopatia podendo resultar em dificuldades na respiração, e sarna demodécica não contagiosa.

Quais são os sistemas e partes do corpo mais afetados por doenças hereditárias em cães?

Uma análise das doenças hereditárias em cães mais frequentes nas 50 raças mais populares no Reino Unido revela que estas afetam principalmente o sistema musculoesquelético, a pele, e o sistema nervoso-sensorial. Entre as raças avaliadas, os Pastores Alemães eram os mais predispostos a estas doenças, e os Dogue de Bordeaux os menos predispostos.

Em doenças relacionadas com a conformação, os Poodle miniatura, Pug, Bulldog e Basset Hound foram as raças mais predispostas. Já em doenças hereditárias não relacionadas com a conformação destacaram-se o Grand Danois, Pastores Alemães e Dobermanns.

Em geral, o aumento das doenças hereditárias relacionou-se com o aumento do tamanho e peso da raça, associado a maiores problemas cardiovasculares, gastrointestinais e músculo-esqueléticos.  Raças mais leves destacaram-se em problemas respiratórios, urogenitais e endócrinos (hormonais).

Nos defeitos gerais, destaca-se os leões da Rodesia onde a crista de pelo está relacionada a um seio dermoide (defeito embrionário que causa canais profundos no dorso que podem inflamar), afetando quase 6% dos animais e podendo ser eliminada através de seleção dos progenitores.

Na região da cabeça, destaca-se o síndrome braquicefálico com problemas respiratórios em cães de focinho curto, como os Bulldog e Pugs. As complicações no parto devido ao elevado tamanho do crânio em relação à pélvis e consequente inercia uterina são frequentes no Scottish terrier, Chihuahua, Pug, Bull Terrier Staffordshire. Má formação do crânio é comum no Cavalier King Charles Spaniels, com dor, lesões cerebrais e tratamento limitado. Cães com olhos salientes ou afundados poderão sofrer de ulceração ou irritação do olho, incluindo os Sharpeis e Pugs. Já as otites são comuns em raças com orelhas longas, pelo excessivo na orelha, e de pelo comprido.

No corpo e patas, destacam-se patologias relacionadas com o tamanho e crescimento rápido, como a displasia do cotovelo ou anca, também relacionados com fatores ambientais. A luxação da paleta ocorre em raças pequenas de pernas curtas, incluindo Terriers e Toys, incluindo Yorkshire Terrier e Sharpei. Já defeitos nas vertebras afetam raças de cabeças pesadas, pescoços longos e crescimento rápido, como o Dobermann e Basset Hound. Problemas cardiovasculares são comuns em raças grandes ou gigantes, como a doença vascular no Pastor Alemão. Já doenças da válvula mitral são mais comuns em raças pequenas, com o Cavalier King Charles Spaniel.

No pelo e pele, dobras e rugas favorecem a humidade e crescimento bacteriano originando infeções e inflamações (dermatite, pioderma), afetando principalmente Bulldogs, Cocker Spaniels e Sharpei. Deformações das pálpebras (entrópio e ectrópio) são comuns em Sharpei, Bulldog, Pug, e poderão também afetar raças gigantes. A cor do pelo poderá também associar-se a patologias, como a cor clara à surdez e urolitíase em Dalmatas, a neutropenia clínica (baixa produção de células sanguíneas) nos Collies de cor cinza, e a maior incidência de infestação do ácaro Demodex canis em pelos curtos ou de cor vermelha. Raças com pelo longo, denso e pesado estão predispostos a dermatite húmida aguda se não houver cuidado com o pelo. Predisposição à inflamação das patas (pododermatite) é comum em raças com muito pelo entre os dedos.

O que pode ser feito para reduzir a incidência de doenças genéticas nos cães de raça?

O Clube de Canicultura do Reino Unido propõe algumas medidas para que se possa reduzir a incidência de doenças hereditárias em cães de raça pura. O próprio Clube está a investigar a genética de várias doenças e como testes genéticos poderão ser utilizados pelos criadores para reduzir a incidência destas doenças nas crias da raça.

Os criadores poderão recorrer a ferramentas de análise genética ou a diagnósticos médico-veterinários para remover cães com estes defeitos dos seus programas de criação, assim evitando a passagem do gene defeituoso às crias.

Já os compradores de cães de raça deverão certificar-se que apenas compram animais de criadores responsáveis e com garantias de saúde. Os compradores poderão procurar certificações dos criadores de como cumprem estes requisitos. Os governos poderão vir a implementar medidas que obrigam à saúde e redução de doenças genéticas nos cães de raça.

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